Porque Poppy Playtime chamou a atenção de crianças?

 O jogo de terror teve uma criançada comprando as pelúcias e isso traz um debate importante.

Imagem de bicho azul peludo gigante com uma boca enorme cheia de dentes bem perto. Personagem Huggy Wuggy do jogo Poppy Playtime. Fonte: https://revistacrescer.globo.com/Educacao-Comportamento/noticia/2022/04/huggy-wuggy-policia-britanica-alerta-sobre-personagem-assustador-que-ameaca-abracar-ate-matar.html


Vai por mim, você que não estava por dentro da história do jogo se arrepiou só em ler o trecho acima, não é? E deve estar se perguntando como algo com esse tipo de história tem crianças no fandom, mas acreditem em mim, tem muito mais do que vocês possam imaginar nisso e a culpa não é da empresa, muito menos de quem joga! Para quem não sabe do que estou falando, em 2022, as pelúcias do personagem Huggy Wuggy, um dos primeiros vilões que são enfrentados no jogo, começam a ser vendidos em qualquer lugar, no camelódromo, nos bazares, em lojas de tranqueiras, em todos os lugares você via o personagem Huggy Wuggy de tudo quanto era cor pendurado na entrada e sendo vendido, ele foi um fenômeno como o Labubu, mas enquanto o pequeno monstrengo chinês era colocado nas bolsas de grife das famosas, o nosso carente bichão azul era agarrado pelas crianças para dormir junto e os pais, sem saber do que se tratava, compravam e davam de presente para as crianças, aí vieram os problemas!

Tudo começou quando em 2022, o Daily Mail fez um artigo falando que a polícia britânica emitiu um alerta sobre o Huggy Wuggy, informando que crianças de 6 e 7 anos estavam encenando as mesmas ações do personagem com os colegas na escola, por ter músicas e imagens viralizadas nas redes como YouTube e TikTok, isso seria relacionado a sustos e coisas que os pais não gostariam que as crianças fossem expostas e podia passar despercebido já que os títulos e legendas não indicavam nada de sinistro. Alguns pais chegaram a relatar na internet que seus filhos pareciam assustados após verem vídeos relacionados ao Huggy Wuggy, ao ponto que crianças não estavam conseguindo dormir sozinhas por causa dos vídeos.

A Revista Crescer começou a procurar na busca do Youtube Kids sobre o Huggy Wuggy e nada era assustador como relatado pelos pais, eram vídeos com desenhos infantis, crianças brincando ou jogando no Roblox ou no Minecraft, até a publicação da postagem, nenhum dos vídeos eram em português e a tal da música com imagens assustadoras do personagem só foram encontradas na versão normal do Youtube, aquela que é direcionada para adultos, e é aí que entra algo importante que eu quero abordar nesse texto mais para frente.

Ainda em 2022, a coisa escalona mais uma vez quando os bonecos do Huggy Wuggy começam a ser vendidos em qualquer lugar, com o sucesso de Poppy Playtime e a criançada completamente maluca pelo bicho, começaram a vender pelúcias dele nas lojas físicas e online no Brasil, todas as crianças começaram a andar com um Huggy Wuggy, mas os pais começaram a se preocupar, afinal, a Espanha tinha proibido o Huggy Wuggy de entrar nas escolas e uma coisa começa a finalmente ser reforçada, a classificação indicativa.

Agora finalmente vamos para o X da questão: Todos os capítulos de Poppy Playtime disponíveis nas plataformas de jogos tem classificação indicativa para maiores de 14 anos, o que indica que crianças de seis ou nove anos como mencionado nas matérias estrangeiras não deveriam ter acesso a esse jogo, até porque, as plataformas pedem a data de nascimento antes de acessar a página do game, além disso, a própria Revista Crescer afirma nas duas matérias referentes ao Huggy Wuggy que nada assustador foi encontrado no Youtube Kids, apenas na plataforma direcionada para os adultos, o que traz a conversa: Será que a culpa disso não é dos próprios pais?

A EducaTaboão falou algo pertinente em sua matéria sobre o assunto: Cabe aos pais avaliarem se permitirão que seus filhos acessem o jogo ou não, e que independente da decisão, eles devem conversar com as crianças para que elas reflitam sobre valorizar a vida e os comportamentos não agressivos, além disso, é dever dos pais se responsabilizarem pelo que os seus filhos olham na internet, atualmente os pais oferecem o acesso infinito na internet para crianças e adolescentes sem protegê-los da exposição excessiva e sem evitar que a criança seja exposta a conteúdos impróprios para a idade dela como violência, pornografia e até contato com pessoas desconhecidas.

O artigo escrito por Carlos Eduardo Pereira Filho sobre os riscos do uso descuidado  da internet por crianças e adolescentes e a responsabilidade civil dos pais no abandono digital no Brasil menciona que mais de 24 milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos de idade no nosso país tem acesso a internet no dia-a-dia, esse número corresponde a 89% da população brasileira dessa faixa etária e muitas delas usam a internet sem moderação, observando que 20% desse número não realiza as tarefas cotidianas básicas como comer e dormir para poder ficar mais tempo conectado, isso por causa da popularização da internet e a maior facilidade de acesso sendo por smartphones, videogames e computadores, os jovens ficam expostos a um universo gigantesco de informações desconhecidas que correm o risco de serem usadas de forma imprudente e ilimitada que podem trazer danos para eles.

Quando é falado de Abandono Digital, Carlos explica que os pais disponibilizam esse acesso ilimitado á internet para os filhos através dos aparelhos eletrônicos atuais sem se atentarem a qual conteúdo está sendo acessado e disponibilizado para eles, acabando por negligenciar a fiscalização e mesmo com o Marco Civil da Internet, não tem como controlar e regulamentar todo o conteúdo que é exposto na rede, então cabe aos pais acompanharem a criança e o adolescente para afastá-lo de conteúdo impróprio e evitar que ele seja exposto a algo que cause danos irreversíveis para a criança e o adolescente.

Esses dias, vi o vídeo de uma mãe no Instagram mostrando que seu filho de 9 anos acordou aos berros ás 4 horas da manhã porque teve pesadelos com criaturas vistas no Youtube e no Roblox, no que ela fala que a partir do dia seguinte, ele seria proibido de jogar e assistir essas coisas, no que uma pessoa comenta sobre a responsabilidade dela como mãe de se atentar sobre o que o filho dela estava consumindo de forma ilimitada na internet, no que a mãe admite que não averiguava o que seu filho fazia nas redes e que geralmente o largava com o celular na mão, isso mostra em como muitos dos pais acabam pecando na responsabilidade digital com as crianças, deixando que elas tenham acesso às redes indiscriminadamente sem cuidar com quem eles conversam, o que estão fazendo e o que estão vendo.

Muitos pais deixam seus filhos menores de idade com infinito acesso ao Youtube comum, onde qualquer coisa pode ser postada por qualquer pessoa, a plataforma já fez uma extensão apenas com conteúdos para crianças, mas a maioria dos pais não colocam os filhos para assistir o YouTube Kids e muito menos cuidam se os seus filhos sairão da plataforma designada para elas e ir para o YouTube comum, depois, querem culpar as plataformas e os criadores de conteúdo por não estarem vigiando os seus filhos.

Mas vamos lá, a culpa também não é totalmente dos pais e das mães, a culpa é do sistema que estamos vivendo atualmente, afinal, a jornada extensa de trabalho faz com que os adultos não tenham tempo para fiscalizarem seus filhos. Em 2024, o site Lunetas publicou uma matéria falando sobre como a escala 6x1 impactava na vida das crianças, pessoas falando que queriam passar mais tempo de qualidade com os seus filhos, por isso, seria importante cuidar das condições de trabalho para os adultos cuidarem de suas crianças e protegê-las, pois isso afeta diretamente os direitos e o bem-estar das crianças, pois essa escala de trabalho restringe o tempo que os pais e até os cuidadores podem dedicar para os pequenos e isso impacta a criança à convivência familiar e comunitária, além de trazer prejuízos para o desenvolvimento emocional, psicológico e social das crianças.

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