O que foi o Marmitagate no Twitter?
Um projeto social deu tanto o que falar nas redes que foi parar até nos jornais e virou caso de polícia.
Não é novidade que no Twitter, agora X, nos deparamos com diversos projetos sociais que deram o que falar por serem verdadeiros ou não, mas teve um caso em específico que furou a bolha da rede social e virou até caso de polícia, atualmente sabemos de poucos desdobramentos após a repercussão, mas as notícias continuam por toda a internet e porque não falar sobre isso, certo?
Tudo começou quando um projeto social ganhou voz na rede do pássaro azul, o nome era Alimentando Necessidades e o perfil pedia a doação de R$ 5,oo via Pix que seria direcionada para marmitas, essas marmitas seriam entregues para pessoas em situação de rua que não tinham o que comer e muitas pessoas doavam, já havia uma polêmica em torno do projeto em que a organizadora teria comprado caixas de balas para dar as pessoas que se alimentavam pelo seu projeto para que elas vendessem as balas e conseguissem dinheiro para comprar as marmitas, o que foi muito criticado, inclusive pela influenciadora Andressa Cathy, e depois, nunca mais foi falado sobre o assunto.
O projeto veio a tona novamente com outros casos levantados no perfil de uma das organizadoras, que afirmou ter recebido panelas doadas que precisaram ser devolvidas depois de um tempo, além da doação de carne estragada para a realização das marmitas, mas o que chamou a atenção foi o fato de que um jornal local da cidade onde as duas organizadoras moravam queria divulgar o projeto e tentou entrar em contato com elas, mas sem sucesso, a conta do projeto contava com 30 mil seguidores e já tinha chegado a arrecadar R$ 30 mil reais apenas em um mês.
Segundo o Olhar Digital, a coisa saiu de controle quando no dia 12 de Setembro de 2022, uma das organizadoras conhecida como Taynara teria feito um anúncio alegando que se retiraria das redes sociais após ter sido vítima de estupro e no dia 15, a sua colega Eduarda havia postado um print onde um homem pedia nudes em troca de doar ao projeto, acontece que alguém estava preparando uma thread no GitHub onde expôs todo o projeto, começando por realizar uma pesquisa minuciosa e dedicada onde descobriu que a Taynara não existia, ou seja, o perfil dela nas redes era falso, apenas tinha interação com a Eduarda e as postagens apenas se tratavam sobre o projeto, não havia nem mesmo o registro de Taynara na cidade, inclusive, quando começaram as investigações, Taynara não compareceu na delegacia, apenas a Eduarda que prestou depoimentos.
Após o dossiê do GitHub, o MidiaMax afirma que a Eduarda chegou a realizar uma live no Instagram ao lado da própria mãe onde afirmaram que o projeto existia e que fez de tudo para que Taynara aparecesse na live, mas ela não quis aparecer e só gravou um vídeo com o seu pronunciamento, no qual as pessoas alegaram ser Eduarda em um ambiente escuro com muito filtro, ela também afirmou que daria uma reportagem ao G1 falando sobre o projeto.
No dia 27 de Setembro, a coisa saiu do controle, pois a plataforma Núcleo publicou uma matéria com um título bem engraçado, diga-se de passagem, onde cobriu a repercussão do caso no Twitter, afinal, todos estavam alegando que as marmitas haviam sofrido manipulação nas fotos com cebolinha photoshopada e até marmitas multiplicadas através de montagem. Também foram criados perfis falsos de falsos moradores carentes para tentar defender o projeto, usando fotos do Pinterest. Na época, o jornal O Município Blumenau chegou a entrevistá-la e publicar a matéria, foi divulgado nas redes alegando que ela havia respondido sobre a Taynara, as falhas nas prestações de contas e muito mais, porém, por alguma razão desconhecida, a matéria não está mais no ar.
A Eduarda, uma das organizadoras do projeto, fez uma live onde a Núcleo afirma que ela alegou que estava brigada com a Taynara, por isso que ela não havia aparecido na live, mas que deviam ter fotos das duas junto e que ia procurá-las, a mãe de Eduarda ficou o tempo todo ao lado da filha discutindo com as pessoas do chat, elas ameaçaram abandonar o projeto e transferir o dinheiro restante para outras instituições beneficentes, além de afirmar estar em São Paulo em uma viagem de trabalho acompanhando o seu irmão.
Em 28 de Setembro, o G1 noticia que a polícia abriu uma investigação para apurar um suposto estelionato e golpe envolvendo o Alimentando Necessidades, nessa altura do campeonato o caso estava sendo chamado de Marmitagate, a publicação da carne estragada estava viralizando e o Ministério Público de Santa Catarina tinha recebido duas representações sobre o caso, o contexto das denúncias não havia sido divulgado, mas outros órgãos públicos haviam se manifestado, além que o G1 tentou entrar em contato com a Eduarda, mas não obteve retorno, o G1-SC afirma que conseguiu contato com ela e que a resposta era que ela não havia sido notificada, mas que estava tranquila e tomaria medidas contra as calúnias e difamações que vinha sofrendo.
O delegado do caso afirmou que a investigação começou quando um boletim de ocorrência foi feito após a repercussão nas redes sociais, o investigador responsável na época falou que haviam indícios de fraudes no projeto, mas que o mais importante era ver se o dinheiro doado estava sendo usado para as marmitas mesmo, os indícios de fraude seriam referentes as fotos que comprovariam a doação por ter divergências de datas e que uma das organizadoras era um perfil falso.
A prefeitura e a assistência social de Blumenau, a cidade que Eduarda dizia operar foram procuradas pelo G1-SC e eles relataram não haver nenhuma denúncia recebida ou apuração aberta para a verificação da veracidade do projeto, porém, o projeto não era cadastrado na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e não recebe recursos da prefeitura, além disso, a Arquidiocese de Blumenau também afirmou que não tinha conhecimento do projeto.
As provas postadas no GitHub foram conseguidas através de um método usado para desmascarar fake news, como busca reserva de fotos e raspagem de tweets na internet, as pessoas envolvidas foram ouvidas pela Tilt, mas pediram anonimato, eles são um grupo que afirmava realizar pesquisas autônomas com foco em engenharia social, eles desconfiaram que o perfil de Taynara tinha poucas informações, apenas fazia retuítes ou curtia postagens feitas pela Eduarda ou pelo projeto, foi quando realizaram uma varredura nos tweets do perfil usando o programa Twint Project que faz a coleta de dados do Twitter usando a programação Python, depois os dados foram exportados para um banco de dados e foram analisados, a verificação foi feita de forma manual e com dados que eram públicos.
O Tilt também afirma que o grupo começou a procurar pelo Instagram do projeto por um perfil da Taynara, mas sem sucesso, a única que aparecia nos vídeos era a Eduarda, não tinha nenhum vestígio sobre a outra menina, o perfil da Eduarda também foi investigado pelo grupo e também não havia mídias, menções e nem seguia nenhuma Taynara, mas isso ainda tinha inúmeras possibilidades que a impediam de ter uma conta na rede e foi aí que eles conseguiram o número de alguma Taynara através da base de dados públicos de Santa Catarina.
No dia 29 de Setembro, mais uma reviravolta é postada pelo G1, o ex-padrasto aparece para desmentir a lorota toda. O empresário aparecia em uma das fotos do Instagram postadas na conta do Alimentando Necessidades para divulgar uma das ações de entregas de marmita, ao entrar em contato com ele, o homem afirma que aquela imagem se tratava de uma entrega de marmitas para garis e havia sido feita há mais de dois anos em Pomerode, não em Blumenau.
Ele contou que, na época, ainda era padrasto de Eduarda, a foto havia sido registrada perto do Natal a pedido dos próprios garis, a foto teria sido publicada nas redes sociais pela Eduarda e a mãe dela, e naquela época, o projeto não existia, ou pelo menos ele não tinha conhecimento do projeto, ele contou que entregou marmitas e refrigerantes para os garis, que quiseram tirar uma foto e que, de alguma forma, Eduarda e a mãe teriam usado aquela foto, ele afirmou várias vezes que não tinha nada a ver com o Alimentando Necessidades e que ele não sairia de Pomerode para entregar marmitas em Blumenau, ele também afirmou que muita gente ligava para ele querendo saber mais sobre o projeto, inclusive, paravam na frente do estabelecimento dele e tiravam fotos e as postagens das marmitas no perfil do projeto realmente eram da mesa dele, os fundos, tudo, mas que ele não tinha nada a ver com o projeto.
A imagem que ele se refere foi postada no dia 20 de Maio de 2022, ano que começou toda a treta, no perfil do Alimentando Necessidades no Instagram em um carrossel com outras fotos, onde a chave pix do projeto é divulgada, descrevendo sobre o projeto e divulgando o preço que custava cada marmita.
Essa não teria sido a única vez que o ex-padrasto teria fotos suas publicadas no perfil do projeto, isso também aconteceu no dia 23 de Agosto do mesmo ano em um reels onde Eduarda também aparece, juntamente com mais imagens de marmitas e alimentos, na legenda era descrito todos os acontecimentos de 2022 e informou que em 8 meses, 162 pessoas haviam sido ajudadas.
Além disso, no dia 29 de Setembro, o delegado afirmou que pelo menos 10 boletins de ocorrências contra o projeto foram localizados pela polícia, o Ministério Público recebeu duas representações e encaminhou para apuração policial, a Eduarda foi procurada novamente pela mídia, onde ela informou que estava muito abalada com isso e que não era verdade o que diziam sobre ela e sobre o projeto.
No dia seguinte, o G1 solta outra matéria onde a Polícia Civil havia recebido mais denúncias contra o projeto, o delegado afirmou na época que projetava mais de 100 vítimas comprovadas do caso e por ter uma abrangência nacional, tinha denúncias em diversos Estados diferentes, mas não detalhou em quais Estados haviam sido feitas as ocorrências.
Dia 5 de Outubro de 2022 surge novidades pelo G1, a polícia afirmou que conversou com duas suspeitas que faziam parte da mesma família e estavam sendo investigadas sobre o projeto Alimentando Necessidades, os depoimentos afirmaram que o projeto recebeu cerca de R$ 30 mil reais no mês anterior através de doações, elas apresentaram comprovantes de compra e notas fiscais dos alimentos e dos insumos para a realização das marmitas, além dos extratos bancários dos valores que foram recebidos através de doações, ele não revelou os nomes das suspeitas, mas Eduarda foi nas redes sociais confirmar que havia ido na delegacia, o delegado falou que as conversas foram bem longas, mas que todas as informações passadas por elas seriam checadas e cerca de 8 pessoas que registraram boletim de ocorrência em Blumenau começaram a ser chamadas para depor.
Em suas redes, a Eduarda encerrou o projeto Alimentando Necessidades justificando que isso ocorreria já que as contas bancárias que usava para financiar as marmitas haviam sido bloqueadas e quando a conta fosse desbloqueada, o dinheiro teria um destino que seria publicado nas redes sociais, ela falou que agiu de forma amadora e que nunca havia imaginado que o projeto teria uma repercussão tão grande. O delegado se pronunciou sobre o bloqueio das contas afirmando que não pediu para a Justiça bloquear as contas, mas que iria averiguar se a informação era verdadeira durante as investigações e a única pessoa que poderia solicitar o bloqueio da conta além da polícia, seria a própria dona da conta.
Dia 13 de Outubro, a polícia já tinha a resposta sobre o dinheiro da conta, eles confirmaram através do G1 que o dinheiro da conta foi destinado para a compra de alimentos para fornecer as marmitas para os moradores carentes de Blumenau, mas que ainda precisavam confirmar se as atividades foram regulares durante todo o tempo do trabalho no projeto, as investigações também almejavam saber se em algum momento, o dinheiro foi destinado para recursos indevidos durante o projeto.
Um ano depois, em 2023, tivemos mais matérias sobre o caso através do G1, onde afirmaram que o inquérito ainda estava sob investigação, o novo delegado da época afirmou que era uma investigação complexa, por causa disso, a investigação estava contando com a colaboração das delegacias estaduais especializadas em corrupção e lavagem de dinheiro, inclusive, haviam chegado nos nomes de mais pessoas, pediram a quebra de sigilo bancário, esses nomes de mais pessoas seriam demais familiares de Eduarda que estariam, supostamente, também envolvidos junto a ela no tal projeto, como a mãe e o irmão.
No dia 1º de Novembro de 2023, o G1 publica que a Polícia Civil começou a operação Marmitagate e a situação já havia escalonado para uma organização criminosa que faria parte do projeto Alimentando Necessidades, o delegado da época afirmou que foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão em uma casa e em um restaurante no município, eles não informaram que foram os alvos da operação, apenas que entre os investigados estavam Eduarda e os familiares dela, foram apreendidos dispositivos eletrônicos, além de um automóvel que teria sido adquirido com o dinheiro do Alimentando Necessidades.
A última notícia que se tem sobre o caso foi no dia 2 de Novembro de 2023, onde o G1 publicou que a polícia estimou que os envolvidos no projeto teriam recebido cerca de R$ 418 mil reais e fizeram aproximadamente 16,6 mil possíveis vítimas entre 2021 e 2022, então, esperamos por atualizações.
Comentários
Postar um comentário