A cultura da magreza extrema
A cultura que todos acharam que havia acabado, retorna ainda mais forte atualmente.
Imagem de mulher extremamente magra com o cabelo castanho preso em um rabo de cavalo com um laço preto, usando um vestido preto com saia branca. Cantora Ariana Grande. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/04/como-a-exposicao-a-magreza-extrema-afeta-a-percepcao-das-mulheres-sobre-o-proprio-corpo.shtml
As pessoas mais jovens talvez não saibam, mas nos anos 2000, havia uma cultura da magreza extrema muito escancarada ao ponto de endeusar transtornos alimentares. Se hoje você acha que a cultura da magreza extrema se tornou um boom desde que divulgaram o poder das canetas emagrecedoras, devo dizer que isso sempre esteve presente e apenas ficou em hiatus um tempo por causa do movimento Body Positive.
Quem acompanhou a ascensão das redes sociais nessa época deve lembrar que as imagens do Tumblr eram cheias de pessoas extremamente magras sendo endeusadas, assim como a imposição dos transtornos alimentares como anorexia e bulimia sendo a solução dos problemas de quem se considerava acima do peso, mesmo que a pessoa não fosse gorda, e as pessoas que realmente eram gordas, se tornavam motivos de chacota e consideradas feias, isso era endossado até mesmo pelas mídias como filmes, e se bobear, até pela imprensa.
A CNN Brasil relembra que as revistas dos anos 2000 sempre julgavam e apontavam os dedos para corpos que eram considerados fora do padrão imposto pela sociedade, era uma época onde quem se tornava capa de revista e não tinha a barriga negativa, já era considerada uma pessoa acima do peso, e acreditem, muitas pessoas eram acusadas de serem gordas ou acima do peso como se isso fosse algo pejorativo, isso fez uma geração inteira ter problemas de imagem e transtornos alimentares, é dito por uma psicóloga que essa cultura da magreza veio de uma cultura patriarcal, onde a mulher é colocada em posição de objetificação, as modelos precisavam ser super magras, e até hoje, a gordofobia continua ocorrendo.
Alguns nomes como Fernanda Souza, Priscila Fantin, Reneé Zellweger, Kate Winslet e Raven-Symoné, muitas estampando capas de revistas como Capricho, eram ditadas como acima do peso, mesmo sendo magras, Fernanda Souza até mesmo participava de entrevistas falando sobre aceitação corporal.
Acontece que de 2023 para cá, vimos uma crescente na volta dessa cultura da magreza, o artigo de Carla Cristina Garcia e Vanessa Rozan da Silveira apontam que a estética da magreza extrema nos anos 90 e 2000 em modelos voltaram com tudo em 2023, principalmente nos desfiles de moda, o que acabou destacando o desaparecimento de modelos plus size nas passarelas, isso também mudou os corpos mostrados pelos influenciadores nas redes sociais e, até mesmo, o aumento de postagens sobre corpos magros e procedimentos estéticos voltados para a magreza, isso reflete um padrão de beleza restritivo e inalcançável, já que a maioria das modelos desfilam com tamanhos de roupas muito pequenos.
Sim, nós tivemos um movimento chamado Body Positive, com o intuito de trazer respeito, aceitação e amor próprio ao corpo, independente de como ele seja, para lembrar que existem diversos tipos de corpos e todos devem ser aceitos como são, assim como essas belezas devem ser reconhecidas, independente de gênero, biotipo, etnia, tipo de cabelo, entre outras características físicas. O conceito era muito aplicado por mulheres plus size, o que fez o movimento se tornar um símbolo de conscientização em torno do estigma que foi criado em cima do corpo considerado gordo e a relação com a saúde.
Por mais que o movimento tivesse recebido uma grande atenção com a era das redes sociais, a verdade é que esse movimento existe desde o século XX, em campanhas que buscavam combater a discriminação contra o preconceito relacionado a aparência e um dos maiores efeitos do Body Positive é a contribuição para a saúde de forma ampla, já que com a redução da pressão estética, as pessoas se sentem encorajadas para cuidar de si sem medo de serem julgadas, como a prática de exercícios físicos, pois muitas pessoas deixam de se exercitar por sentirem vergonha ou insegurança.
Infelizmente, nos últimos anos, o movimento Body Positive perdeu a sua força no mundo todo, as marcas pararam de dar visibilidade para modelos fora do padrão novamente, não fizeram mais nenhuma publicidade com pessoas acima do peso, além disso, influenciadores que promoviam o movimento e compartilhavam suas experiências decidiram emagrecer, com muitas dessas influenciadoras se voltando contra corpos acima do peso.
Uma coisa que precisamos entender sobre o movimento Body Positive é que a intenção dele não era romantizar a obesidade ou incentivar que as pessoas fossem obesas, a intenção do movimento era as pessoas aceitarem os seus corpos como eles são dentro de um padrão saudável para todos, sem achar que o corpo inalcançável pela magreza extrema era o único corpo válido, pois muitas pessoas pensavam que o movimento era sobre isso e julgaram muitos influenciadores que passaram pelo processo de emagrecimento como traidores do movimento, e na verdade, eles decidiram emagrecer um pouco por questão de saúde, mas ainda são lidas como pessoas gordas pela sociedade, que ainda endeusa a magreza extrema, mesmo com a ascensão do movimento Body Positive.
O G1 publicou uma matéria sobre a perda da força do movimento Body Positive onde relatou que o período pós-pandemia e a viralização das canetas emagrecedoras foram dois grandes fatores para isso acontecer, além da propagação do discurso contra a diversidade. Um relatório da Vogue Business analisou que os principais desfiles de moda que aconteceram na primavera e no verão de 2025 mostrou que o tamanho considerado padrão, que são de 34 a 40 no Brasil, correspondeu a 97,1% dos looks, o médio que é entre 42 e 48 no Brasil correspondeu a 2%, e os tamanhos considerados plus size acima de 46, correspondeu a apenas 0,9% dos looks e esse é um dos piores índices de inclusão dos últimos anos, sendo que em 2023, cerca de 4,4% dos looks eram de tamanhos médios ou grandes.
A Vogue afirma que um dos fatores para essa inclusão limitada nos desfiles é a mudança cultural dos últimos anos, que foi marcada pelo fortalecimento do conservadorismo, já que Donald Trump, infelizmente o atual presidente dos Estados Unidos, adotou esse discurso quando assumiu, pois ele retirou as verbas de apoio aos posicionamentos políticos que eram relacionados a diversidade em empresas, independente de serem corporais, deficiência, racial, qualquer diversidade, isso acabou afetando empresas internacionais que tinham sede no Brasil, isso reforçou as dificuldades do movimento Body Positive, que já estava sendo afetado desde o fim da pandemia do Covid-19, pois nessa época, as pessoas estavam tentando levar uma vida mais saudável e a obesidade foi ainda mais associada com práticas ruins como sedentarismo, mesmo sendo algo multifatorial.
- Artigo "Tamanho zero, a epidemia da magreza" de Carla Cristina Garcia e Vanessa Rozan da Silveira.
O jornal Correio do Povo trouxe uma matéria que inicia de forma que deixa muitas pessoas pensativas, afinal, quando anunciaram a volta da moda dos anos 2000 como as calças de cintura baixa, os tops minúsculos e as minissaias, o ideal da magreza extrema estava vindo devagar e acabou dominando tudo de maneira nociva em 2025, um padrão que parecia estar morto e enterrado, mas na verdade, estava apenas adormecido, pois basta rolar um pouco o feed das redes sociais para se deparar com o corpo da vez voltando a ser aquele que poucas pessoas tem e muitas tentam alcançar de forma desesperada, isso resultou em uma avalanche de busca por métodos rápidos para emagrecimento, entre eles, as canetas emagrecedoras como Mounjaro e Ozempic.
A busca por canetas emagrecedoras como meio de emagrecimento é algo perigoso, segundo o GShow, o Ozempic é um medicamento que está sendo usado de forma desordenada, originalmente ele era usado para tratar diabetes tipo 2, mas tem sido usado para emagrecimento, o uso sem indicação ou sem acompanhamento de um médico traz risco à saúde, pois, por ser um medicamento injetável que atua diretamente no sistema digestivo, ele inibe a fome e a absorção de glicose pelo organismo e isso pode causar efeitos colaterais graves como náuseas, diarreia, pancreatite, problemas na vesícula biliar e problemas cardíacos, além disso, a automedicação pode levar à uma perda de peso rápida e descontrolada que pode causar perda de massa muscular e deficiências nutricionais.
Taís Lustosa Cavalcante e Rafael Rodrigues da Costa falam no seu artigo chamado "O Ideal da Magreza Extrema nas Redes Sociais: Impactos Psicológicos e Culturais da Retomada da Estética Y2K" que a busca pelo corpo perfeito junto com a insatisfação com a aparência costuma ser responsável por desenvolver transtornos alimentares como bulimia e anorexia, mas mesmo com os impactos negativos à saúde, eles continuavam sendo romantizados e se tornando alvo de admiração por alguns jovens e isso é observado em uma trend do TikTok e do Instagram chamado "magras, magras, magras", onde os jovens se mostram pulando enquanto cantam isso, surgindo frases romantizando a magreza na legenda, além de normalizar transtornos alimentares, isso reflete uma questão profunda sobre o culto da magreza, muitas vezes extrema, como sinônimo de beleza e aceitação pessoal.
Após a proibição de anúncios de moda com modelos excessivamente magras no Reino Unido, a BBC fez uma matéria relatando que especialistas do setor começaram a alertar sobre a volta de uma tendência que valoriza a magreza extrema, já que marcas de roupa como Zara, Next e Marks & Spencer (M&S) tiveram anúncios proibidos nos últimos meses por expor modelos magras demais em termos de saúde em suas publicidades. O órgão que faz controle das propagandas no Reino Unido chegou a falar para a BBC que observaram um aumento significante nas reclamações sobre esse tipo de anúncio, recebendo em média, cinco ou seis reclamações desse tipo por semana, as diretrizes do órgão conhecido como ASA afirmam que os anunciantes não podem apresentar uma imagem corporal não saudável como aspiração.
Outra prática que tem chamado a atenção ultimamente como um transtorno alimentar velado e que também entra na obsessão pela magreza extrema são as contagens de calorias em um prato de comida, que se tornou conteúdo nas redes sociais com vídeos curtos, a prática de contagem de calorias pode afetar a saúde mental das pessoas que fazem dietas, segundo o Comida Sem Filtro.
A discussão sobre o retorno da cultura da magreza extrema já estava sendo iniciada há muito tempo em diversas redes sociais, mas a conversa se tornou ainda mais fervorosa quando o caso da cantora Ariana Grande veio a público, pois ela fez uma aparição durante a sua turnê Eternal Sunshine em que a mostrou com um corpo extremamente magro, ela recebeu diversos comentários nas redes sociais em relação a isso, o que a fez dar uma pausa na carreira. O ocorrido com Ariana Grande acabou levantando um alerta importante, pois independente da causa do emagrecimento extremo da cantora, isso trouxe um debate sobre desnutrição, perda excessiva de peso e a busca por padrões estéticos ainda mais restritivos.
O debate também havia sido aceso quando o clipe de Petal da cantora foi lançado, mostrando o corpo dela extremamente magro ao ponto dos ossos estarem aparecendo sob a pele, mas mesmo que magreza não seja sinônimo de que algo está errado, o debate foi aceso e a preocupação com a cantora também.
Distúrbios alimentares em artistas não seria algo novo, Victoria Beckham, ex-Spice Girls, fez um documentário com o seu nome para a Netflix em 2025, onde ela abordou sobre a sua luta contra os transtornos alimentares que ela tem lidado desde nova, e que piorou após o nascimento de Brooklyn, o seu primeiro filho com David Beckham em 1999. Ela explica que foi pesada em rede nacional após seis meses do nascimento de seu filho, ela não tinha controle sobre o que estava sendo escrito sobre ela, sobre as fotos dela que estavam sendo tiradas, ela achava que conseguiria controlar isso, mas estava afetando negativamente a sua saúde.
Para terminar o texto, a CNN Brasil fez uma matéria falando como a obsessão com o peso afeta a saúde dos jovens, pois segundo uma pesquisa feita pela Universidade de Warwick na Inglaterra, jovens aparentemente saudáveis que controlam o corpo de forma rigorosa por meio de dietas restritivas e atividades físicas tem mais sintomas de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico na vida adulta, a pesquisa também mostrou que as meninas são mais vulneráveis, pois desde cedo foram ensinadas que a aparência importa, além das redes sociais amplificarem isso com corpos editados, rotinas perfeitas e discursos que misturam autocuidado com estética, isso causa mudanças bruscas nos hábitos alimentares, ás vezes pulando refeições, sendo rígidas com comidas permitidas, sentindo culpa após comer ou a necessidade de compensar com exercícios físicos em excesso.

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