A epidemia causada por casas de aposta e cassinos online
Como as pessoas se viciaram em bets e tigrinhos ao ponto de acumularem dívidas absurdas na vida real?
Imagem de tigre amarelo com detalhes em branco e manchar pretas usando um casaco vermelho com detalhes em dourados e um óculos escuro na cabeça com uma mão apontando para cima e uma no peito enquanto pula sorrindo com a boca aberta. Tigre do Fortune Tiger. Fonte: https://sistema-2d6.fandom.com/pt-br/wiki/Tigrinho
Vocês devem saber mais do que ninguém que nos últimos anos, o jogo do tigrinho viralizou nas redes sociais, muitos influenciadores começaram a fazer propaganda desse aplicativo, e como se não bastasse, junto com ele surgiram vários outros aplicativos de apostas de esportes que também estavam sendo divulgados por atletas e demais pessoas da mídia, mas desde sempre se tem falado sobre o vício que esse tipo de jogo tem trazido para as pessoas e os prejuízos financeiros de uma coisa incerta que começou a ser propagada como um investimento, que de investimento não tem nada. Hoje, vamos falar do famoso jogo do tigrinho, das bets e de como isso se tornou uma epidemia com prejuízo financeiro.
Antes de mais nada, vocês precisam saber o que são as casas de apostas online, elas são aplicativos que deixam o usuário apostar em eventos esportivos e competições em geral, isso abrange do futebol até o basquete, corridas de cavalos e até competições de jogos eletrônicos (eSports), além disso, as apostas podem variar de simples previsões de resultados até coisas mais complexas como os desempenhos dos jogadores e os placares exatos dos jogos. Já os cassinos online são oferecidos em várias plataformas, até mesmo, plataformas de casas de apostas online para que as pessoas apostem e joguem nos caça-níqueis online, roletas, jackpots, crash games e até video bingo, os mais famosos sendo chamados de Sweet Bonanza, Gate Of Olympus, Bigger Bass Bonanza e o Fortune Tiger, que trouxe o famoso título de jogo do tigrinho.
Vocês devem achar que isso não tem nada de mais, mas a verdade é que tem problemas sim, pois isso acabou escancarando um vício descontrolado da população ao ponto de trazer problemas de saúde mental e financeiros, isso gerou até um debate na TV Senado sobre o vício nas chamadas Bets, como são chamadas as casas de apostas online, avaliando se essas plataformas deveriam ser proibidas no Brasil pelos impactos desse vício na saúde pública, na economia e no endividamento das famílias que apostam, onde também foi abordada a ludopatia, que é o nome dado ao transtorno do jogo, reconhecido pela OMS (Organização Mundial de Saúde), além de deixar claro a diferença entre jogo recreativo e vício.
A Ludopatia é uma dependência comportamental reconhecida pela OMS no CID-11 e pela Associação Psiquiátrica Americana no DSM-5. Segundo o site do Hospital Santa Mônica, ela ocorre quando a pessoa perde a capacidade de controlar o impulso de apostar de forma progressiva, mesmo tendo prejuízos financeiros, emocionais e familiares. É explicado que as apostas ativam um sistema de recompensa cerebral e o elemento mais poderoso das casas de apostas e cassinos online são a imprevisibilidade, além disso, o cérebro humano responde de forma intensa às recompensas incertas, então como a pessoa que joga não sabe quando ela vai ganhar, o cérebro fica em constante estado de expectativa, isso acaba impactando o psicológico dos jogadores, que podem desenvolver depressão, ansiedade, insônia, isolamento social, intensa irritabilidade, crises familiares, abuso de álcool e drogas, ou até mesmo, ideação suicida.
Segundo a Associação Médica Brasileira (AMB), o governo federal colocou uma plataforma no ar a partir de Dezembro de 2025 onde a pessoa podia bloquear o seu acesso a todos os sites de apostas autorizados no país ao informar o seu CPF, e até Agosto de 2026, cerca de mais de 1 milhão de pessoas pediram a autoexclusão, inclusive, no período de Copa do Mundo, foram 387.645 pedidos, 35% apontaram que perderam o controle sobre o jogo como motivo para o bloqueio, e como se não bastasse, o SUS ampliou de 600 para 100 mil teleatendimentos mensais em saúde mental voltados para quem tinha problemas com jogos e apostas.
A verdade é que muitas famílias brasileiras deixaram R$ 62,5 bilhões nas plataformas de apostas em 2025, esse número saiu das contas bancárias das pessoas para as plataformas e nunca mais voltou, esse montante equivale a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias apresentado pelo 3º Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros.
A Carta Capital fez uma matéria onde foi em uma reunião dos Jogadores Anônimos em São Paulo, um grupo que oferece apoio para pessoas que tem compulsão, eles informaram que em duas horas não faltaram relatos de vícios em bingos clandestinos, caça-níqueis, pôquer e em bets, relatando os detalhes da dinâmica por trás do ganha-perde que vão além das dívidas, apontando quebra de confiança familiar, lapidação de patrimônio e até ameaças por agiotas, que começam a intermediar essa compulsão por jogo. Alguns afirmavam que começaram com cinco ou dez reais, mas em um ano, havia perdido toda a reserva de 200 mil reais, outros mostravam o seu ódio pelas bets, afirmando haver muitas propagandas, além de influenciadores falando de bet, o que afeta os jovens que olham para essas pessoas como exemplos.
A Revista Piauí fez uma matéria em Janeiro de 2025 onde escancarou a máquina de propaganda que as bets movimentam, onde famosos e influenciadores são pagos (e não é pouco) para recomendarem o uso das plataformas enquanto se engajam pessoalmente, fazendo do ato de apostar um estilo de vida que se tornou rotineiro em suas vidas, não apenas isso como em outra matéria da Revista Piauí, também foi mostrado e escancarado como os influenciadores ganhavam milhões divulgando jogos como o Fortune Tiger e o Aviator, com um contrato de ganho em cima da perda alheia.
O vício em apostas se tornou um problema de saúde pública, muitos apostadores relatam que venderam tudo o que tinham da noite para o dia para colocar esse dinheiro nas plataformas de apostas, em uma semana aportando 200 mil reais, e na outra, indo trabalhar de bicicleta, até tem uma tentativa de parar de jogar, mas a pessoa acaba tendo a sensação de querer apostar mais para ganhar mais e voltar a ter as mesmas sensações iniciais de quando começou, como se fosse uma droga. Uma matéria do G1 afirma que os grupos mais vulneráveis são pessoas com uma renda menor e adolescentes que não deveriam ter acesso a essas plataformas, afinal, 55% dos menores de idade que apostaram no último ano apresentaram dependência, enquanto o índice da população adulta é de 39%, se recortar por faixa econômica, 53% de quem ganha até um salário mínimo joga de forma problemática.
A Agência Pública afirma que o vício em bets e cassinos online se tornaram tão grandes que o Exército precisou emitir uma cartilha e adotar terapia para afastar militares de baixa patente desse vício, os economistas afirmam que os brasileiros perderam R$ 24 bilhões em um ano com apostas, tendo apostado R$ 68 bilhões, e como se não bastasse, emissoras grandes de televisão fecharam parcerias com empresas estrangeiras, além de apresentadores e influenciadores lançando as suas próprias plataformas de bet.
Sei que você deve estar se perguntando: Jogos de azar não é proibido no Brasil? E sim, é proibido, muitas pessoas tentaram mudar a lei nos últimos anos para abrir o mercado para cassinos-resort no país, mas aparentemente, não precisou da mudança da lei para isso, pois os sites das bets tem servidor no exterior e sede em paraísos fiscais que se aproveitaram da falta de regulamentação da internet e de uma lei do Michel Temer, liberando os anúncios, e entraram através das redes sociais e das ferramentas de buscas, criando uma epidemia de apostas que tem atingido as famílias brasileiras.
"Um dos artigos analisou a prevalência do uso de apostas esportivas entre brasileiros e encontrou que os jovens adultos, principalmente homens de 18 a 30 anos, são os mais vulneráveis. Esse grupo combina maior acesso à tecnologia, impulsividade própria da faixa etária e intensa exposição às campanhas de marketing das plataformas.
A BBC chegou a trazer o caso de um rapaz em uma de suas matérias, onde ele afirma que perdeu cerca de R$ 53 mil reais em apostas online, quando se deu conta de que aquilo havia virado um vício e de que precisava parar, pediu ajuda para o próprio pai que começou a administrar todo o dinheiro dele, mesmo assim, ele voltou a apostar, dessa vez, usando o cartão de crédito, por isso bloqueou todos os cartões e todos os bancos nos quais ele podia pedir empréstimo, a coisa se tornou tão rígida que o pai dele dava R$ 500 reais para a namorada do rapaz e ela repassava para as despesas do dia a dia, se ele precisasse de mais dinheiro, precisaria pedir a ela, depois de três semanas, ele não apostou mais, depois de um tempo ele tomou a iniciativa de ficar com esses R$ 500 reais, foi aí que a namorada não se tornou mais uma intermediadora, essa não foi a única ajuda que ele recebeu, o rapaz também passou a assistir vídeos no Youtube de pessoas que relatavam passarem pelo mesmo problema, além de tomar medicamentos receitados por psiquiatras, sendo um de impulsividade que é o mesmo que alguns alcoólatras tomam.
Infelizmente, o desespero das pessoas que apostam em jogos online tornou o país como o líder em novas assinaturas para o software Gamban que é usado para bloquear sites de apostas, ao ponto de superar o mercado de outros países como o Reino Unido, além de se tornar o segundo maior visitante do site em 2024, são cerca de 6 mil pessoas baixando o Gamban por mês, sem a necessidade de campanhas de marketing, essas são pessoas que a indústria das apostas atraem e depois jogam fora, e agora estão em busca de ajuda, essa é uma fala do co-fundador do Gamban para a BBC.
Em Novembro de 2024, o Brasil chegou a realizar a CPI das Bets com o intuito de investigar a crescente influência dos jogos online de apostas no orçamento das famílias brasileiras, além de uma possível associação com organizações criminosas que estivessem envolvidas em lavagem de dinheiro e o uso de influenciadores digitais para promover e divulgar essas atividades, mas o que aconteceu foi que a CPI rejeitou o relatório final de Soraya Thronicke, com quatro votos contrários e três favoráveis ao texto, isso encerrou a CPI sem nenhuma medida adotada, sendo a primeira vez nos últimos dez anos que uma CPI tem o relatório final rejeitado. Esse documento acusava 16 pessoas de cometer crimes, incluindo influenciadores digitais amplamente conhecidos, e ainda apresentava 20 projetos de lei para conter os malefícios causados pelas apostas online.
Mesmo assim, a matéria da TV Senado afirmou que a Soraya entregaria os documentos para as autoridades e que se o relatório tivesse sido aprovado na CPI, não haveria uma força maior que os impedisse dos indiciamentos, ela também afirmou que os influenciadores praticaram estelionato quando simulavam que apostavam valores altos, sendo que as contas eram simuladas, sendo subsidiadas pelas próprias plataformas para induzir os seguidores para jogar com a falsa promessa de ganhar dinheiro fácil.
E por incrível que pareça, logo após eu terminar de elaborar esse texto, eu entro nas redes sociais e me deparo com uma notícia maravilhosa: o Presidente Lula anunciou a proibição das bets no Brasil! Segundo a BBC, na noite do dia 25 de Setembro de 2026, Lula assinou uma medida provisória para proibir as plataformas de apostas online, todos os usuários terão até dia 5 de Outubro para retirar os saldos, porque a partir do dia 6 de Outubro, as plataformas sairão do ar, também foi mandado para o Congresso, um projeto de lei que dá penas para quem operar ou divulgar sites de apostas.
Aparentemente, o anúncio foi feito durante um evento em São Paulo, a partir de ontem, as pessoas não podem mais colocar dinheiro nessas plataformas, apenas ficarão disponíveis para os apostadores sacarem o que resta, o motivo seria porque as apostas tem comprometido a renda das famílias e estava causando endividamento, mesmo com as medidas tomadas pelo governo federal.
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