Like a Dragon: Infinite Wealth mostrou cancelamento de internet e fanatismo religioso

 O oitavo jogo da história principal trouxe temas atuais que, além de te deixar submerso no jogo, são temas que deveriam ser mais discutidos na sociedade.

Imagem da capa do jogo Like a Dragon: Infinite Wealth com um homem de cabelos brancos e um homem de cabelos castanhos de costas um para o outro no meio de um oito invertido conhecido como símbolo do infinito com vários personagens atrás em um efeito amarelado. Fonte: https://store.steampowered.com/app/2072450/Like_a_Dragon_Infinite_Wealth/?l=brazilian

Faz alguns anos que comecei a acompanhar a franquia de jogos Yakuza, também conhecida como Like a Dragon, já trouxe até mesmo uma lenda contada no jogo aqui no blog, mas nas últimas semanas, estou terminando a saga e o Infinite Wealth trouxe alguns temas que me chamaram a atenção, eram tão atuais que fiquei me questionando se não deveríamos debater mais sobre isso.

O jogo em questão conta a continuação da história do personagem Ichiban Kasuga que deixou a vida de Yakuza e começou a trabalhar como um cidadão considerado comum pela sociedade, até que um dia, uma VTuber (um avatar virtual criado e usado para fazer vídeos e lives na internet sem revelar a verdadeira identidade da pessoa que está por trás do canal), conhecida como Hisoka Tatara, faz um vídeo expondo Ichiban com uma variedade de desinformações absurdas, isso faz com que ele perca seu emprego. Investigando a situação, um conhecido o pede para ir até o Havaí para que Ichiban possa encontrar a sua mãe, pois o personagem foi abandonado em uma soapland em Kamurocho quando criança, porque a mãe estava sendo procurada pela Yakuza na época de seu nascimento.

No Havaí, a mãe de Ichiban está desaparecida e todas as gangues estão a procura dela, ao fazer uma investigação ferrenha, ele descobre que existe um grupo religioso chamado Palekana que é devoto a Deusa Nele, ou Madame Nele como alguns chamam, e um cara chamado Bryce Fairchild seria o mestre por trás dessa religião.

Não querendo dar mais spoiler do que dei, mas já dando, Bryce seria um mestre falso, ele conseguiu o título de mestre de forma fraudulenta, ao ponto que está tentando assassinar a verdadeira mestre da religião, uma menina que está sendo protegida pela mãe de Ichiban, que seria a única restante da família Mililani, a verdadeira família mestre da religião Palekana. Para impedir que ele seja retirado a força desse título, Bryce está incentivando a maioria da população do Havaí a cometerem, até mesmo, atentado contra si próprios em nome de Madame Nele como uma lavagem cerebral, um fanatismo religioso, onde as pessoas, em sua maioria devotas, falam sobre “purificar os hereges” com a intenção de impedir que Ichiban e qualquer outra pessoa se aproxime da menina para resgatá-la.

A história da VTuber disseminadora de Fake News não acaba logo no início do jogo, Kazuma Kiryu, que foi protagonista da saga até o Yakuza 6: The Song of Life, volta ao Infinite Wealth como um personagem jogável, ele está tendo problemas com essa VTuber, além de estar sendo exposto por ela, várias mentiras estão sendo espalhadas sobre ele, e em qualquer lugar que ele vá, tem pessoas medindo seus passos e corroborando com as Fake News do canal da VTuber.

A temática me chamou muito a atenção e é algo que merece ser discutido, disseminação de notícias falsas pela internet é muito real, acontece tanto em vídeos como em matérias jornalísticas, tivemos vários casos de como as chamadas “Fake News” prejudicaram as pessoas no decorrer dos anos, mesmo que isso não seja algo tão recente, elas começaram a se popularizar muito de alguns anos para cá, e exatamente por não termos uma lei rígida sobre isso, cada vez mais pessoas são vítimas dessas informações falsificadas que reverberam no mundo muito mais do que a “correção” delas e prejudicam muitas pessoas, até mesmo tirando vidas, darei alguns exemplos:

Em maio de 2014, uma mulher foi espancada até a morte pela população em Guarujá no Estado de São Paulo. Tudo começou com um boato de que uma mulher estaria sequestrando crianças na região para fazer rituais e isso se espalhou pelas redes sociais, na época, um retrato falado foi divulgado como sendo, supostamente, da sequestradora. Acontece que a população associou o retrato falado a uma dona de casa que era moradora da região, e quando encontraram a mulher dando uma fruta que recém havia comprado para uma criança que estava na rua, cerca de 100 pessoas agrediram a mulher, inclusive a mãe da criança que recebeu a fruta, acreditando que ela era a suposta sequestradora. A vítima das agressões estava carregando uma Bíblia de capa preta, isso fez a população acreditar que era um livro relacionado a satanismo.

Na época, a polícia foi chamada por uma outra parte da população que ficou inconformada com as agressões brutais que a moradora estava sofrendo, a Polícia Militar enviou várias viaturas para ajudar a conter a situação, mas o trabalho ficou ainda mais difícil por causa dos agressores, que tentaram a todo o custo atrapalhar o resgate.

Cerca de cinco pessoas foram presas acusadas de participarem da agressão, um dos homens foi condenado em 2016 a 30 anos de prisão, e em 2017, três homens pegaram 40 anos de cadeia e outro foi condenado a 26 anos de prisão pela agressão. Além de duas mulheres, que segundo a Wikipédia, foram indiciadas por incitação ao crime.

Segundo o G1, o retrato falado que se espalhou pelas redes sociais na época eram referentes a um caso que ocorreu em 2012, onde uma mulher foi acusada por tentar roubar um bebê na Zona Norte do Rio de Janeiro, ou seja, esse retrato falado foi feito pela Polícia Civil do Rio de Janeiro anos antes da dona de casa ser linchada.

“Imagens de câmeras de segurança divulgadas na época mostraram uma mulher passando com a filha de 15 dias no colo e sendo seguida pela suspeita. A vítima estava levando o bebê para fazer o teste do pezinho em um posto de saúde. Ao sair da unidade, foi surpreendida pela mulher.”

— G1

A polícia de São Paulo chegou a afirmar que não havia registro de sequestro de crianças no Guarujá em 2014, quando a mulher foi assassinada por linchamento na região, o que configura mais uma vez que o caso que levou a moradora a ser linchada foi uma Fake News.

Em 2021, a família da vítima ainda estava tentando conseguir uma indenização por parte do Facebook pelo ocorrido e também a responsabilização da página que divulgou o retrato falado enganoso na rede social, que culminou no assassinato dela, alegando que o Facebook permitiu que o vídeo publicado da mulher sendo espancada pela população continuasse repercutindo na rede, além de ter ganhado em cima dessa repercussão. Infelizmente, o pedido foi recusado, pois a justiça entendeu que a plataforma não é culpada e que o Facebook não tinha a obrigação de retirar a postagem do ar.

E não precisamos voltar muito no tempo para ter um exemplo de como as Fake News são prejudiciais e nada acontece, em Dezembro de 2023 tivemos um caso de uma moça de 22 anos que tirou a própria vida após um linchamento virtual por causa da repercussão de uma Fake News postada por uma página famosa de fofocas sobre celebridades.

Na época, várias páginas de fofocas nas redes sociais publicaram uma informação falsa afirmando que a moça estava em um relacionamento com um humorista brasileiro famoso, porém, uma página grande com muitos seguidores tanto no X como no Instagram, repostou a fofoca falsa, que viralizou.

Acontece que a moça relatou que estava sofrendo diversos ataques na internet através de suas redes sociais, até que ela veio a cometer suicídio, na época, a página apagou as postagens com a informação falsa e não publicou mais nada, chegou até a desativar a sua conta por alguns momentos, mas depois voltou a ativa e está até hoje.

Na época, a página chegou a publicar uma nota falando que não havia nenhuma irregularidade nas informações disseminadas na página, pois aquelas eram as informações que eles tinham naquele momento, além de falar que o compromisso da página era com a ética, com a responsabilidade e com a legalidade.

Depois de alguns dias, o proprietário da página precisou dar esclarecimentos para a Polícia Civil que foi divulgado em nota pela página, falando que eles entregaram provas que esclareciam o papel da página no caso e conversas mostradas que elucidavam qual foi a medida tomada pela página ao descobrir que a informação era falsa, que teria sido a retirada da postagem do ar.

Depois foi descoberto que a Fake News havia sido criada pela própria moça, mas que ela não esperava os ataques que viriam após a divulgação do falso relacionamento, ao ponto de pessoas mandando a moça tirar a própria vida, isso foi o que havia feito a moça tomar uma alta dose de medicamentos e se suicidar, inclusive, a jovem de 18 anos que incitou o suicídio da moça foi indiciada.

Acontece que as páginas que divulgaram a Fake News sem pesquisar a veracidade da história e disseminou ao ponto dos ataques se formarem não foram indiciadas pelo crime de disseminação de Fake News por um motivo: Fake News ainda não é um crime no Brasil.

“O Brasil está diante do desafio de avançar na regulação das redes sociais. A implementação de políticas eficazes, acompanhadas de mecanismos de fiscalização e punição adequados, é importante para prevenir o ódio e garantir que a internet seja um terreno de expressão responsável, inclusivo e livre de desinformação e violência.”

— Carta Capital

Na época, isso trouxe diversos questionamentos e debates, afinal, a criminalização das Fake News precisa acontecer, pois se tudo continuar acontecendo sem uma punição severa, as coisas tendem a piorar cada vez mais.

Mesmo que a moça tivesse divulgado as informações falsas para as páginas, essas páginas ainda tem responsabilidade no que publicam e elas publicaram uma Fake News, o fato da moça ter divulgado a falsificação não muda o tom do debate, assim como também não justifica o linchamento virtual que ela recebeu e que a levou a tirar a própria vida.

Após as Fake News, a sociedade teve um retrocesso imenso, estamos em meio a um problema de saúde pública que vem acontecendo há anos que é a desinformação sobre a vacina, por essa razão, muitas doenças que nunca mais ouvimos falar estão voltando a tona e matando pessoas, pois muitas pararam de se vacinar.

“Em meio à pandemia de covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que o mundo entrou em uma outra emergência de saúde pública: a infodemia. Com o excesso de informações publicadas por todo tipo de fonte na internet, essa crise torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa. A OMS ressaltou, na época, que esse fenômeno é amplificado pelas redes sociais e se alastra mais rapidamente, como um vírus, afetando profundamente todos os aspectos da vida.”

— Agência Brasil

Na Pandemia causada pelo Covid-19, tivemos muitos casos de notícias falsas envolvendo as vacinas, muito foi difundido que as vacinas causavam autismo, trombose, que pessoas haviam morrido por culpa das vacinas e que, inclusive, vacinas transformavam em jacarés e implantavam chips, além disso, também apareceram Fake News por causa da medição de temperatura na porta das lojas pelo termômetro infravermelho, onde muitas pessoas espalharam que o objeto poderia causar câncer e problemas de visão, tudo isso é MENTIRA!

Não é de hoje que a ciência é questionada por falácias absurdas, todas vindas de um grupo específico: religiosos de uma crença específica. Isso acontece porque muitos líderes de religiões colocam na cabeça de seus fiéis que eles devem confiar apenas em Deus e que ele é quem trará a cura, enquanto arrebata os pecadores, esse tipo de fanatismo religioso tem sido difundido cada vez mais e tem prejudicado o avanço do país, que até então, se dizia laico, fora que muitos desses discursos são usados para lucrar em cima do dinheiro de seus fiéis que vivem no medo de irem para o inferno e se encontrarem com o demônio, por isso dão dinheiro a igreja com a promessa de, supostamente, conseguir um lugar no céu.

Existe uma quantidade absurda de notícias em que terreiros e templos de outras religiões são atacados pelos chamados crentes, fanáticos que pensam que apenas a sua religião é a certa e praticam intolerância até mesmo nas ruas com todos, inclusive, aqueles que não possuem uma crença, isso tem permitido que elas se sintam livres para divulgarem mentiras e prejudicarem quem elas quiserem em prol de um Deus que prega ao contrário do que eles cospem na cara do povo.

Achei interessante que Infinite Wealth trouxe essas questões de forma escancarada na história do jogo, mostrando de forma crítica como a disseminação de histórias falsas se espalham rápido pela internet ao ponto de prejudicar a vida das pessoas fora das plataformas e como fanatismo religioso também é prejudicial ao ponto de pessoas que se dizem devotas usarem a religião para praticar maldade em nome de alguma entidade, de forma que isso as justificasse, acho que são questões que devem ser mais debatidas, difundidas e regulamentadas.



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