Pokémon Go está treinando IA!
Pokémon Go está usando os seus dados para treinar Inteligência Artificial de mapeamento global e provavelmente você não estava sabendo!
Você sabia? Não sabia? Então agora vai ficar sabendo! Vocês devem se lembrar do Pokémon Go, um jogo para celular gratuito que pode ser baixado facilmente em lojas para aplicativos de celular desde 2016, desenvolvido pela Niantic Labs junto com a Nintendo e a The Pokémon Company, você pode capturar pokémon, entrar em batalhas com líderes de ginásio na sua região e etc.
Já falamos bastante de Inteligência Artificial por aqui, de como essa ferramenta é perigosa tanto na propagação de informações falsas, como com roubo de trabalhos, e até prejudica o meio ambiente por exigir muitos recursos para o seu funcionamento, o que não sabíamos era que a Niantic Labs estava treinando IA usando os dados de navegação de seus usuários.
A isca usada pela Niantic Labs para alimentar o Sistema de Posicionamento Visual foi o recurso Pokémon Playground, que tem como objetivo criar espaços no mundo real que são compartilhados pelos jogadores para deixar os Pokémon serem fotografados, isso induziu as pessoas a alimentarem esse sistema.
Explicando de outra maneira, o Pokémon Go permite que os jogadores possam escanear locais existentes na vida real enquanto caçam os Pokémon de forma virtual, utilizando o aplicativo do jogo, essa função é opcional e acontece em locais públicos específicos como PokéStops e Ginásios Pokémon que, geralmente, são em pontos de referências na cidade.
O negócio é que a mecânica do jogo combina os elementos virtuais com realidade aumentada, e em cada interação que os jogadores tem com pontos específicos do mapa, isso contribui para dar dados a um banco de dados geoespacial que se torna ainda mais preciso e abrange mais lugares.
A Niantic Labs aparentemente vem criando o sistema de posicionamento visual, conhecido como VPS, há cinco anos, esse sistema usa as imagens dos celulares para determinar a posição e a orientação para um mapa 3D, ele é alimentado através dos escaneamentos que os jogadores fazem, isso faz com que o sistema entenda mais profundamente a geografia urbana e os pontos de interesse.
O modelo criado pela Niantic Labs se chama Large Geospacial Model, ele processa os dados que foram coletados para alcançar uma “inteligência espacial” prometendo revolucionar a forma como as pessoas interagem com espaços urbanos através da realidade aumentada.
Pokémon Go se tornou um fenômeno mundial desde o seu lançamento em 2016, esse jogo incentivou as pessoas até a saírem de casa para que elas pudessem explorar os arredores da cidade em busca de Pokémon, isso fez as pessoas se manterem imersas dentro do jogo, mas infelizmente, eles estavam ajudando a treinar uma Inteligência Artificial para navegação global sem nenhum aviso prévio, com milhões de usuários se aventurando por diferentes lugares, o jogo capturou os dados de padrões de movimentações, locais de interesse e reagiram a diferentes obstáculos nos ambientes existentes na vida real e isso funciona da seguinte forma: O jogo usa o GPS do seu telefone para funcionar, pois precisa mapear as localizações dos jogadores em tempo real, esses dados são compartilhados e coletados em larga escala, isso permite que aconteça um mapeamento mais detalhado das rotas que os jogadores escolhem, os locais que frequentam e como eles interagem no ambiente da cidade, os principais são: As rotas mais comuns que identificam quais são as rotas mais usadas formando um mapa detalhado de rotas preferidas, a identificação de pontos de interesse que o jogo incentiva os jogadores a visitarem por causa dos PokéStops e Ginásios, geralmente, colocados em pontos turísticos e históricos, e a compreensão do ambiente urbano que faz um conjunto diversos de dados serem gerados e isso acaba refletindo na topografia da cidade, além das tendências de mobilidade urbana.
Geralmente, as empresas de tecnologia usam esses dados para aprimorar os algoritmos de navegação da Inteligência Artificial com o objetivo de criar sistemas de IA para uma navegação mais eficaz de forma similar ao que os seres humanos fazem, isso pode ser aplicado para otimizar rotas onde os sistemas de IA usam os dados para otimizar os caminhos em tempo real para serviços de entrega ou trabalhos autônomos, serve também para a detecção de obstáculos onde o sistema pode se mover em torno de obstáculos de uma forma eficiente analisando como os jogadores fazem, e serve também para interação humana-IA, onde a IA melhora a interação com espaços humanos usando os dados do jogo, nisso elas aprendem os locais mais movimentados e mais evitados.
Muitas pessoas acham que isso é uma coisa boa, afinal, seria usado para deixar tudo mais fácil e mais preciso, o problema é que nós não sabemos até que ponto esses dados estão seguros na mão das empresas, sabemos que muitos dados são vazados por mês por sites que achamos que confiamos, isso causa uma confusão em relação a privacidade dos dados. Isso seria algo que não é exclusivo do Pokémon Go, a verdade é que muitos aplicativos usam localização, dados, entre outras coisas, para funcionar e não sabemos se estão usando nossos dados para treinar IA sem o nosso consentimento ou não.
A defesa da Niantic Labs em relação a isso é que essa informação estaria nos Termos de Serviço e que isso é opcional, pois o jogo daria missões que você poderia ou não fazer, como tirar foto de algum lugar, porém, muitas pessoas estão afirmando que não sabiam, porque os Termos de Serviço quase nunca são lidos por causa da quantidade de páginas, e geralmente, não fica bem claro, isso já causou problemas para plataformas de jogos que não deixaram bem claro em seu site sobre estarem vendendo a licença de uso e não o jogo em si, talvez seja a hora de cobrar que as empresas deixem claro em seus jogos e sites, fora o Termo de Serviço, que usam seus dados para treinar IA.
Acontece que o que torna tudo mais perigoso é que um executivo da Niantic chegou a afirmar que conseguia ver o governo e os militares comprando esse novo modelo de Inteligência Artificial, o vice-presidente sênior de engenharia da Niantic é o ex-criador do Google Earth, Street View e Google Maps, ele foi em um evento chamado Bellingfest e estava dando uma palestra com o nome de “Coordenadas de Amanhã: por que a computação espacial precisa de um novo mapa” onde contou sobre a sua história na indústria, seu trabalho no Google e na Niantic Labs, e alguns detalhes sobre o modelo geoespacial da Niantic que a empresa havia anunciado nos primeiros dias de Novembro.
Isso inclusive se tornou pauta no BlueSky, pois Jason Koebler, jornalista do 404 Media, postou o link dessa matéria presente na citação acima, e que, infelizmente, tem um paywall, porém, o debate se estendeu ainda mais quando Nazih Fares, desenvolvedor de jogos, falou um pouquinho sobre isso na rede social.
Nazih aproveitou a deixa e terminou seu fio indicando uma matéria de seis anos atrás onde esse medo em cima de um gigante ecossistema de mapeamento já existia e foi postado no Kotaku.
Na matéria indicada por Nazih, é apontado em 2019 que o Pokémon Go mapeava os seus usuários, na Kotaku é relatado que Potter: Wizards Unite, um jogo já excluído de Harry Potter, estava coletando muitos dados de onde os jogadores estavam indo, pois esse aplicativo tinha a mesma função dos outros jogos também lançados pela Niantic: incentivar os usuários a saírem de suas casas e apreciarem cada lugar da sua cidade.
Nessa matéria mostra que desde 2019, quando os usuários jogavam tanto Pokémon Go como Wizards Unite ou qualquer outro jogo desenvolvido pela Niantic Labs, todos os movimentos dos jogadores eram armazenados 13 vezes por minuto de acordo com a investigação da Kotaku e até os jogadores que sabem que esses dados são guardados, ainda ficam chocados quando percebem a quantidade de informações que deram para a desenvolvedora através das suas localizações.
A matéria também conta que a Niantic se orgulhava em falar que era uma empresa que levava seus usuários para fora de suas casas, pois os usuários dos seus jogos eram incentivados a interagir e caminhar pelo mundo real, e que a plataforma de jogos da Niantic estava em constante evolução, se tornando parecido com o que aconteceu com o Google Maps porque a Niantic surgiu disso.
A investigação que a Kotaku fez em relação a Niantic é enorme, mas vale a pena a leitura, lá eles contam toda a história de surgimento da empresa e a ideia por trás desses jogos. A única coisa que sei é que é muito triste saber que nos tornamos reféns de empresas que usam nossos dados sem esclarecer isso, e se for verdade mesmo que pode ser usado pelo governo e por militares, talvez o buraco seja mais fundo do que pareça.
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