Assédio contra mulheres no ambiente gamer.

 Muitas mulheres evitam falar que são jogadoras porque muito assédio ocorre nesse ambiente.

Imagem de mulher com longos cabelos castanhos e lisos na frente de um computador, usando fones de ouvido brancos e jaqueta jeans. Fonte: https://jornalempauta.com.br/mulheres-ampliam-participacao-no-universo-de-games-e-querem-mais/

Vocês sabem que eu sou gamer, amo jogar videogame desde criança, isso foi uma herança de momentos maravilhosos que tive com o meu pai jogando 007 Goldeneye no nosso Nintendo 64, fora outros jogos maravilhosos que conheci no decorrer da vida como Fatal FrameMáfiaYakuza e vários outros, mas o que a maioria das pessoas de fora da comunidade não tem a noção que ocorre, é o assédio nesse tipo de ambiente contra mulheres que jogam.

Muitas vezes já ouvi falar e li pessoas dizendo que eu jogava para atrair atenção de homem, ou me fazendo perguntas específicas sobre um jogo até eu não conseguir responder para alegar que eu estava mentindo, fora isso, vi muitas streamers que eu conheço serem xingadas e até terem suas lives derrubadas por serem mulheres jogando videogame, então acho interessante comentar sobre esse assunto.

Um jogo online que eu sentia ódio de jogar e fez com que eu me afastasse do mundo de jogos online foi o League of Legends, também conhecido como LoL, por muitos anos joguei com usuário unissex para não ser reconhecida como mulher dentro da plataforma por causa da quantidade de homem que queria me ensinar a jogar algo que eu jogava há anos e sabia como funcionava ou me xingava por qualquer merda que ele fazia e eu não tinha como contornar, isso fez eu começar a jogar sozinha apenas contra os personagens controlados pelo computador.

Em 2022, dados pesquisados pelo Pesquisa Gamer Brasil também conhecido como PGB mostrou que 51% do total de gamers brasileiros são mulheres, mas que 60,4% dessas mulheres jogam em smartphones, enquanto a participação de mulheres em consoles é de 36,1% e em computadores é 41,1%, nessas duas últimas plataformas mencionadas é onde mais se joga online com outros usuários.

Uma das respostas que poderia explicar esse número tão baixo de mulheres jogando em consoles e computadores nas partidas online é por causa do assédio e dos ataques de ódio que as mulheres sofrem, inclusive, a Reach3 Insights em parceria com a Lenovo publicou um estudo em 2021 onde mostra que 59% das mulheres costumam esconder seu gênero nos jogos online durante as partidas para evitar sofrer assédio, e muitas vezes para se proteger, elas fecham o chat, jogam com amigos ou, até mesmo, evitam jogar online.

“Paty Landim, streamer e influenciadora de jogos e gerente de projetos do famoso servidor Cidade Alta, do jogo GTA RP, costuma enfrentar esse tipo de situação. Além de já ter evitado abrir canais de comunicação com outros jogadores para que não a identificassem como mulher, ela passou a evitar fazer “roleplay” de casais em partidas online para não sofrer assédio na vida real. Ela chegou a ter de encerrar um relacionamento com outro personagem porque o jogador queria estender o romance para fora do jogo.”

— Meio & Mensagem

É relatado por Paty, e eu assino embaixo, que o assédio vem disfarçado de piada, questionamentos e provocações, como perguntas se as mulheres já fizeram o almoço, falando para tomar cuidado para não queimar a comida, falando como se o lugar da mulher fosse apenas na cozinha, quando vai bem em alguma partida, os homens falam que não parece uma mulher jogando, fora os xingamentos machistas.

Julia Arrais, que é Designer de Projetos Sênior na Cheil Brasil também deu seu relato para o Meio & Mensagem falando que não usa nomes que demonstrem ser de mulher em jogos online, mas nos jogos que obrigam o chat ser por voz, isso não resolve o problema, quando há derrota, a culpa cai sempre em cima da menina presente na partida e isso acontece antes da partida iniciar, já tiveram casos de homens abandonando a partida porque tinha uma mulher presente e se recusavam a jogar com mulheres, e por ninguém saber quem é, nunca ocorre uma posição por parte da plataforma, o que torna o ambiente de jogos online muito propício para assédio, afinal, não há punição.

Bruna Pastorini, que é Diretora de Planejamento e Conteúdo da DRUID, relatou que a prática de omitir o seu nome quando é mulher é comum, infelizmente, e tem jogos que são reconhecidos por serem mais tóxicos que outros, por causa da grande presença masculina, como é o caso de jogos Multiplayer Online Battle Arena também conhecidos como MOBA, que é o caso do League of Legends.

Bruna relata para o Meio & Mensagem que foi jogar um MOBA e entrou com o seu nome, onde caiu em um time com três jogadores homens que pareciam se conhecerem e jogarem juntos, no primeiro erro que ela cometeu, um dos homens do time dela falou que eles deram azar de terem caído no mesmo time que ela e a xingaram, mas ela deu a volta por cima e conseguiu fazer coisas muito importantes no jogo, o que deixou os homens sem graça depois.

Esse debate tem surgido desde 2016, os pesquisadores chamados Jesse Fox e Wai Yen Tang da Universidade Estadual de Ohio fizeram um questionário digital para as jogadoras relatarem suas experiências e todas as 293 mulheres que responderam ao questionário e que jogam durante 22 horas semanais, relataram ter sofrido assédio. Na pesquisa, tanto homens como mulheres já haviam sofrido assédio, porém, as mulheres enfrentam ofensas diferentes e graves como o assédio sexual e as principais agressões são: ameaças, piadas sobre estupro, insultos físicos, insultos sexistas, pedidos de favores sexuais em troca de ajuda no jogo e, até mesmo, stalking, que significa descobrir a identidade e perseguir a pessoa.

“O preocupante em relação aos insultos, afirmam os pesquisadores, é que as mulheres não apenas se afastam dos jogos como também passam a se questionar. “Sou mesmo tudo isso que ele disse? Aí fico de frente para o espelho e começo a achar que pode ser verdade”, escreveu uma das jogadoras que respondeu ao questionário.”

— Revista Galileu

Fox e Tang pretendiam ampliar a pesquisa, por isso não divulgaram os números prévios do questionário na época, mas relataram que uma grande parcela das mulheres que jogam informaram sintomas de depressão por causa dos assédios e agressões que sofreram enquanto jogavam, uma quantidade considerável inclusive, e que muitas se registravam com usuário masculino para evitar o assédio.

O governo da Bahia fez um texto sobre isso em seu site oficial em 2021 onde relata a história de Nina que foi contada no Jornal da Band, uma menina apaixonada por jogos e já quando criança sofreu esse preconceito, usando um apelido que não especifica seu sexo.

“Segundo pesquisa, 77% das mulheres gamers já presenciaram comportamento impróprio durante o jogo. Os relatos vão desde xingamentos no chat até ameaças de estupro e morte.”

— Governo do Estado da Bahia

Segundo estudos, no início da indústria dos jogos, o ramo era voltado para o público masculino sendo o principal consumidor, uma das causas disso seria porque as empresas usavam a figura masculina como principal, isso teria ajudado a construir o ideal estereotipado de que jogos eram “coisa de menino”, isso seria um espelho da sociedade que constrói papéis sociais de forma cultural, categorizam uma infinidade de coisas como masculinas ou femininas, e isso influencia em qual é o público-alvo de algum produto e como será apresentado para esse público, porém, essa apresentação tão estereotipada mantém e normaliza uma matriz de gênero dominante.

Um exemplo disso é que brinquedos relacionados a aventura como característica principal, geralmente são voltados para meninos e os que são relacionados a maternidade, beleza, consumo e cuidar da casa são voltados para as meninas, isso espelha desde a infância o comportamento, a atitude e os valores da sociedade com as relações de gênero.

“Esse ideal de que os jogos seriam algo masculino poderia ser um dos fatores que contribui para o afastamento das mulheres desse ramo. Além disso, “apesar de meninos e meninas se interessarem por videogames, crianças de ambos os sexos consideram que games são brinquedos de meninos” (CASSEL E JEKINS, 1999 apud FORTIM 2002, p. 31)”

— Rayanne Karollyne Pontes da Silva em seu TCC de título Sexismo Em Jogo: Uma Análise sobre o Preconceito e o Assédio Sofrido por Mulheres Gamers.

Ainda ligado a esse ideal, também deve se pensar no acesso aos jogos que são proporcionados para as mulheres na infância, pois muitas mulheres falam sobre os consoles serem comprados para os seus irmãos e ficarem no quarto dos irmãos, isso diminuía a oportunidade delas jogarem videogame, reforçando essa prática como apenas masculina.

O estudo afirma que as mulheres são excluídas dos jogos como um todo, pois são vistas como forasteiras, sofrendo preconceito por uma grande parte do público masculino que consome e também desenvolvem jogos, e a mulher que adentra esse ambiente lida com agressões, assédios, ameaças de estupro e de morte.

Outra explicação que também pode estar atrelada a esse preconceito é que a representação feminina nos jogos, em sua maioria, estereotipa a figura da mulher como frágil, secundária e dependente da figura masculina como se fosse um prêmio ou um suporte, além disso, as personagens femininas são altamente sexualizadas na maioria das vezes, com um corpo pensado para agradar os homens, então a figura masculina ganha o papel de herói, enquanto a figura feminina ganha papel de objeto, exemplos disso são a Cammy White e a Laura Matsuda de Street Fighter. Outros exemplos, mas de donzelas em perigo são a Princesa Zelda de Legend of Zelda (que parece estar mudando nos últimos jogos) e a Princesa Peach dos jogos de Mário.

Também se tem uma visão estereotipada do tipo de jogo que cairia no gosto das mulheres, pois muitos desenvolvedores e a própria sociedade acha que mulheres gostam de jogos mais casuais com temática que reforça os afazeres domésticos, como cozinhar, cuidar da casa, cuidar de crianças e até moda, como se estivesse reforçando que o lugar da mulher é na cozinha e não no ambiente gamer.

“A partir do exposto, é possível constatar que o fato de homens e mulheres vivenciarem de maneira diferenciada experiências relacionadas ao lazer está diretamente relacionada com a matriz dominante de gênero. Diante disso, é possível afirmar que a exclusão feminina de determinados espaços de lazer é fruto do sexismo.

— Rayanne Karollyne Pontes da Silva em seu TCC de título Sexismo Em Jogo: Uma Análise sobre o Preconceito e o Assédio Sofrido por Mulheres Gamers.

Se querem mais exemplos de mulheres que sofreram assédio, temos vários: A jornalista e publicitária Ariel Ayola relatou ao TechTudo em 2022 quando tinha 26 anos que sua preferência de jogos foi afetada por causa do assédio que sofreu por ser mulher, preferindo jogos casuais que não sejam multiplayers por receio de jogar com pessoas desconhecidas, relatando que com 14 anos, jogava Counter-Strike com nome falso porque se sentia mais segura assim, mas isso não impediu os ataques, um homem que não era do time dela a xingou por tê-lo matado algumas vezes durante a partida e ela precisou mandá-lo calar a boca ao ligar o microfone, quando viram que ela era mulher, a partida ficou pior, o cara falou que invadiria a casa dela para estuprá-la porque ela merecia. Em League of Legends não foi diferente, Ariel conta que em 2016, sofreu xingamentos pesados que a deixaram apavorada, isso a fez parar de jogar.

Annebelle Leblanc, professora de música e idiomas também relatou sua experiência ao TechTudo, relatando que sofreu preconceito e assédio em, PASMEM, Among Us só por ter nome feminino, isso fez uma pessoa ficar a partida inteira a assediando ao invés de jogar.

“Anne também faz parte de outras minorias por ser uma mulher trans e ter dislexia. Isso aumenta ainda mais os ataques que recebe. Ela já foi vítima de transfobia enquanto jogava. “Já começaram a me tratar no masculino por conta da voz (ao falhar em modular) em salas de Among Us”, desabafa. Modular a voz significa ajustá-la para um tom mais agudo. Este é um mecanismo de Anne para evitar situações transfóbicas.”

— TechTudo

A pesquisadora na área de jogos e mestranda em Comunicação na Universidade Federal Fluminense chamada Dara Coema, explicou ao TechTudo que o foco e a divulgação de grandes jogos era tão voltado para o público homem cisgênero, heterossexuais, brancos, jovens e financeiramente privilegiados que eles reconheceram por anos que o mundo dos jogos pertenciam apenas a eles, então não seria surpreendente encontrar situações em que os homens se sentem representando superioridade como se a mulher não pertencesse naquele espaço ou não se equipare a ele e isso forma uma liberdade de tratarem as mulheres gamers dessa forma horrenda independente de jogarem bem ou terem reconhecimento.

A pesquisadora ressalta que muito desse comportamento que reconhecemos como um comportamento padrão gamer é parte de uma cultura que é reforçada e aceita pela própria indústria de jogos, e essa violência estrutural contra mulheres na indústria pode ser exemplificada com o processo judicial de assédio sexual, moral e físico movido contra a Activision Blizzard.

Para quem não conhece essa história, em 2021, a Activision Blizzard foi processada pelo Departamento de Trabalho Justo e Habitação conhecido como DFEH depois de receberem denúncias sobre uma cultura de assédio muito ativa na empresa, isso incluía assédio sexual, moral e físico contra as mulheres da empresa que incluía, até mesmo, diferença salarial.

“Segundo o DFEH, os executivos e a área de recursos humanos sabiam da discriminação que acontecia “e falharam em tomar medidas razoáveis para impedir a conduta ilegal, e em vez disso, retaliaram as mulheres que se queixavam”. De acordo com relatos de ex-funcionárias, as mulheres tinham que lidar frequentemente com comentários machistas e de conotação sexual.”

— CNN Brasil

Algo que reforça ainda mais esse comportamento no ambiente de jogos online é o anonimato e a falta de punição, muitas pessoas se aproveitam do anonimato para falar o que der na tela, e as consequências leves e reversíveis fazem compensar para o jogador tóxico, pois geralmente o jogador é banido por alguns dias quando denunciado, e depois, ele retorna normalmente ao jogo, além disso, existe um efeito manada dentro da comunidade, onde um jogador observa a atitude da maioria e replica, reconhecendo a impunidade e a falta de repercussão das suas ações.

Esse é outro fator que causa muito debate: a falta de punição severa sobre isso, as denúncias não são levadas a sério pelas empresas e a punição é muito leve, tem vezes que não há qualquer punição, apenas uma advertência.

“As mulheres resistem em espaços majoritariamente masculinos e exigem mudanças que começam a acontecer principalmente por iniciativas próprias. São exemplos a criação de grupos de jogadoras, campeonatos de esports e times femininos. “Diante da marginalização, elas tomaram providências com as próprias mãos, construindo assim meios de apoio. Esse movimento tem justamente influenciado o mercado, que tem percebido que se não mudar, irá perder essas consumidoras” conclui Dara.”

— TechTudo

Atualmente, temos jogos com mulheres fortes e menos sexualizadas, que são colocadas até mesmo no posto principal, mas infelizmente, ainda existem muitos homens que se incomodam, a maior prova disso é o escândalo que muitos homens estão fazendo pelo protagonismo de uma mulher em GTA VI, chamando de “lacração”, isso mostra como as coisas não mudaram na comunidade no decorrer dos anos, pelo contrário, mostra que as coisas apenas tendem a piorar a cada dia.

Esse não é o único exemplo, eu postei há um tempo, um texto sobre a dubladora da Abby sendo ameaçada de morte porque a personagem mata o personagem Joel no The Last of Us part II, muitas pessoas desejaram a morte até mesmo do filho dela, o que mostra que a comunidade tende a desandar, mas o que esperar de diferente, já que a nossa própria sociedade está retrocedendo a cada hora que passa?

“A luta das mulheres para conquistar espaço no mercado de jogos existe, mas ainda há pouco protagonismo no cenário no meio. Sasha Hostyn, por exemplo, conhecida nas competições como Scarlett, é a mulher mais bem paga do mundo dos e-sports e ainda assim ocupa apenas a posição de número 347 quando se trata de ambos os sexos.”

— Agência de Notícias

Nós temos muitas mulheres gamers incríveis que motivam ainda mais a jogar como a PlayerBarbieMalenaMaetheBagi, entre várias outras, além disso, abrem portas para que outras mulheres gamers surjam, mas infelizmente, a sociedade é hipócrita, machista e cretina!


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