Como acontece o bullying no Japão?

 Bullying, inclusive com brasileiros, acontece muito nas escolas japonesas.

Imagem de três garotos japoneses de uniforme escolar olhando pela janela para o lado de fora. Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50897066

Já faz um tempo que eu venho fazendo textos sobre bullying, falei sobre Lost Judgment e a minha visão sobre bullying falando como isso afeta a vida da vítima e também falei sobre as acusações de bullying contra artistas na Coreia do Sul onde alguns eram apenas boatos, mas outros foram afastados e suspensos da empresa que trabalhavam por causa disso, também falei da Soojin se defendendo das acusações contra ela, mas hoje, decidi falar um pouco de como isso é tratado no Japão, pois já vi muitos relatos de pessoas que moravam no país, sendo brasileiros ou até mesmo japoneses, relatando sobre como funciona o bullying por lá e decidi trazer um pouco de visibilidade aqui também.

Ijime é o nome em japonês referente a bullying e é considerado um dos grandes problemas sociais do Japão, pois muitas crianças abandonam os estudos, e no pior dos casos, as crianças e adolescentes cometem suicídio por causa do sofrimento no ambiente escolar, isso não acontece apenas nas escolas, o Ijime também pode se referir a bullying no trabalho, como também já houveram casos no Japão de funcionários amarrados sem roupa em caminhão e a Toyota já foi responsabilizada pelo suicídio de um funcionário por causa de Ijime dentro do ambiente de trabalho.

É dito que no ano de 2012, a Alternativa levantou alguns dados que mostravam que, naquele ano, de Abril até Setembro, ou seja, um período de seis meses, 144 mil casos de bullying foram registrados, esse teria sido mais que o dobro de casos registrados em 2011, que tinha chegado a 70 mil casos, envolvendo tanto maus tratos físicos como maus tratos psicológicos entre os alunos das escolas.

“Dos 144 mil casos, 278 foram considerados críticos, envolvendo risco de vida. Por conta disso, campanhas contra o bullying dentro das escolas, envolvendo alunos e professores serão incentivadas pelo Ministério da Educação, afim de conter esses números exorbitantes que podem causar graves sequelas emocionais.”

— Japão em Foco

É dito que em 2012, a maior incidência de casos se deu no Primário, chamado de Shoogaku, com 88.132 episódios, seguido pelo Secundário, chamado de Chuugaku, com 42.751 incidentes, em seguida, o Ensino Médio, chamado de Kookoo, que registrou 12.574 casos, e por último, a escola de apoio especial que registrou 597 casos de bullying.

Nessa época, já era falado em como o bullying estava enraizado na cultura da sociedade japonesa e desde os tempos primordiais, por isso, seria mais difícil de resolver a questão, além disso, tudo isso começava pelos professores, que seriam quem deveria protegê-los de tudo isso, pois eles diferenciam os alunos, e alguns acabam ridicularizando na frente dos outros, o que faz os demais pensarem que isso é normal, encorajando esse tipo de atitude.

O aumento nas incidências de casos pode se dar pelo fato de que, hoje, o bullying pode ser feito com qualquer criança e isso teria surgido por causa do aumento do uso da internet, pois essa ferramenta que deveria ser usada para conhecimento, deu novas formas de cometer bullying, inclusive em anônimo, pois muitas pessoas podem ter coisas caluniosas e até fotos postadas em sites, fóruns e redes sociais.

“As crianças precisam de total apoio. Criar o hábito de conversar com elas, para que se sintam confortáveis em vir até você se tiver um problema. Para evitar criar um agressor, ajude ela a ter compaixão e cuidar dos outros desde cedo.”

— Coisas do Japão

O bullying no Japão não acontece apenas contra os próprios japoneses, mas contra os brasileiros também, independente de serem descendentes de japoneses ou não. Uma influenciadora que falou muito em 2024 sobre isso foi a Camila Pipoka, que relatou em um vídeo no seu canal no Youtube sobre precisar mudar a filha dela para uma escola latina no Japão porque ela estava sendo excluída pelos colegas japoneses por ser brasileira, mesmo sendo descendente japonesa e nascida no Japão. Ela também fez um vídeo com Jack, um amigo, que relatou todo o sofrimento de estudar em escola japonesa, inclusive, contando sobre uma professora japonesa que fez de tudo para exclui-lo das atividades por ser brasileiro.

Um caso que chamou a atenção até mesmo da BBC ocorreu em 2021, quando o brasileiro Sandro Kimura se surpreendeu ao saber que sua filha de 16 anos tinha sofrido ameaças de morte na escola japonesa.

“”Espere só que nós dois vamos matar você e arrancar o seu cérebro”, dizia a mensagem publicada no stories do Instagram de um dos meninos da classe. Atrás da mensagem principal, frases xenofóbicas deixavam claro para quem era a ameaça: “volte ao seu país”, “morra”.”

— BBC

O caso aconteceu em Nagano, os pais da menina foram até a escola resolver esse problema esperando que os envolvidos na ameaça fossem expulsos, mas o que aconteceu foi que a menina quase foi colocada de castigo pela escola por ter chamado os meninos de nojentos e essa teria sido a mesma punição que o garoto que a ameaçou de morte recebeu da instituição. Dias depois, os valentões voltaram a estudar na mesma sala de aula da menina, o que fez os pais ficarem furiosos com razão.

O Sr. Sandro chegou a entrar em contato com órgãos públicos, com a prefeitura, até mesmo com a Secretaria da Educação, mas sem sucesso, ele também tentou denunciar para a polícia, mas eles não registraram a ocorrência, falando que não podiam fazer nada já que a ameaça não tinha sido mandada diretamente a ela e não tinha o nome dela escrito, todos sabiam que tinha sido para a menina, o valentão admitiu para o professor que a ameaça era para ela, mas aparentemente, isso não era o suficiente para a polícia fazer alguma coisa e se ele gravasse o garoto admitindo, também não ia resolver, porque a polícia pensaria que o agressor poderia ter sido coagido.

Acabou que o pai da menina levou o caso para as redes sociais, publicando dois vídeos contando o ocorrido com a filha, o vídeo viralizou e encheu de comentários de brasileiros relatando que tiveram ou estavam tendo esse mesmo problema com os seus filhos na escola japonesa, alguns até relataram que sofreram esse problema como brasileiros em escola japonesa.

“O bullying é considerado um problema social grave no Japão, responsável pelo suicídio de menores de idade todos os anos. Em 2019, pelo segundo ano consecutivo, mais de 300 crianças e jovens tiraram a própria vida, segundo os dados do Ministério da Educação (Mext).”

— BBC

No levantamento anual sobre a ocorrência de bullying na escola japonesa em 2020, foram divulgados 612 mil casos reportados por 30 mil escolas em 2019, superando os dados de todos os anos anteriores, mesmo sendo algo considerado grave, as escolas parecem não fazer nada para conter isso, o único plano preventivo que eles tem, é um questionário anônimo como incentivo para o aluno reportar o ocorrido e os órgãos serem notificados. Os especialistas já anunciam que o país está muito longe de resolver essa questão.

Outro caso é a da Ayumi Nagata, que também é relatado nessa mesma matéria da BBC, na época, ela era tradutora de assistência social em Nagoya, capital de Aichi, ela visitava as casas das famílias brasileiras onde as crianças não estão frequentando a escola, e na maioria dos casos, o motivo era o bullying, ela ressaltou que isso também podia se dar porque os alunos tinham problemas de desempenho escolar, pois os pais eram ausentes e não tinham interesse nos estudos do filho, em outros casos, os pais não dominavam o japonês, mas as crianças eram fluentes por causa da escola, então não se comunicavam em português com os pais, por isso os pais não saberiam do que acontece nas escolas porque não tem esse contato, isso explica porque muitos estudantes não contavam o ocorrido para os pais.

A própria Ayumi teria se motivado a trabalhar com assistência infantil por conta do bullying que sofreu, ela conta que foi vítima de muitos episódios de Ijime e teve bloqueio com a língua japonesa mesmo entendendo bem por duvidar de sua capacidade. Ela conta que era uma estrangeira com déficit de atenção e gordinha que estudou na escola japonesa desde pequena, ela geralmente ficava no fundo da sala sozinha e sempre foi tratada diferente pelos outros alunos, inclusive, ela era chamada de “butajiru”, que é um trocadilho preconceituoso com “buta” que significa porco e com “Burajiru” que é como chamam o Brasil.

“Ayumi acredita que a padronização excessiva na escola seja a causa das desavenças. “A partir da escola eu comecei a entender como é a cultura dos japoneses. Não é levado em conta o sentimento de ninguém, ninguém é tratado realmente como um ser humano deveria ser, com seu sentimento valorizado. Aqueles que agem diferente do grupo são considerados peças defeituosas”, opina.”

— BBC

O bullying é tão extremo que as pessoas preferem morrer porque sabem que nada será feito contra isso, teve um caso onde uma menina japonesa morreu congelada por causa do bullying que sofria na escola e mesmo sabendo que o motivo era bullying, a escola insistiu que esse não tinha sido o motivo e isso aumentou o debate no Japão sobre a negligência das escolas.

O caso aconteceu em Ashikawa, Hokkaido, a vítima foi Saaya Mirose de 14 anos, o caso teria ocorrido em 2021, mas até 2022, a escola continuava negando que o suicídio teria sido motivado por bullying, até que um comitê foi levado até a escola para investigar a situação, onde o relatório confirmou que Saaya havia sofrido bullying por haver fatos que foram reconhecidos como tal.

“Como o conteúdo relatado pela escola diferia muito do que havia sido coberto pela mídia, o conselho de educação em abril de 2021 reconheceu as circunstâncias de Hirose como um “caso sério” sob a Lei de Promoção de Medidas para Prevenir o Bullying. Foi por conta disso que uma investigação por um comitê de terceiros foi lançada para examinar as respostas dadas pelos educadores na época.”

— Coisas do Japão

Em 2022, um documentário foi feito ilustrando o bullying cometido contra brasileiros em escola japonesa, um cineasta independente chamado Masakazu Yoshimoto produziu o “Muito Prazer” uma obra que aborda os problemas educacionais que os brasileiros enfrentam como o tema central, Yoshimoto é a terceira geração de uma família coreana e nascido no Japão, seu nome verdadeiro é Park Jeng-il, isso se dá porque dizem ter ocorrido uma época no Japão onde o governo obrigava os imigrantes coreanos a usarem nome social japonês para nacionalizá-los e poderem fazer parte do exército japonês, mais tarde essa lei foi abolida, mas alguns coreanos que permaneceram no Japão continuaram usando o nome social.

“O diretor Park conta que teve seu primeiro contato com brasileiros no Japão há cerca de 10 anos, quando visitou uma escola brasileira em Ibaraki, como instrutor de produções audiovisuais. Era um projeto promovido pela empresa Panasonic, que incentiva estudantes a se expressarem através de vídeos, organizando um concurso e disponibilizando equipamentos para as gravações. “Fico até envergonhado em admitir isso, mas até então não sabia que existiam tantos brasileiros no Japão”, diz ele. Ao interagir com os alunos, Park reparou que algumas circunstâncias se assemelhavam entre brasileiros e coreanos residentes no Japão. “Achei isso curioso e decidi produzir esse filme”, comenta. Nascia ali a ideia de vasculhar e registrar o comportamento.”

— Portal Nippon Já

O cineasta conta que a história dele remete bastante ao problema vivido pelos estudantes brasileiros, pois com 9 anos, ele frequentava a escola japonesa com o seu nome coreano e acabou sofrendo bullying, o que fez ele mudar de escola e passar a usar o seu nome japonês, então ele relata que entende o que os estudantes brasileiros passam porque muitos vão a escola japonesa por questões financeiras já que as escolas brasileiras são particulares, e na época, a mensalidade era cara, ao contrário da escola japonesa.

E vocês podem pensar que estou usando dados muito antigos para falar de bullying no Japão, mas tem dados recentes que mostram como a situação continua feia em relação a Ijime ou bullying: Em 2024, foi relatado que a polícia atendeu um recorde de 292 casos de bullying em escolas japonesas em 2023 e você não leu errado! Isso significa que aumentou 66% comparado a 2022 e entre esses casos atendidos, 404 estudantes dos ensinos Fundamental e Médio no total foram punidos, aumentando 81% comparado a 2022.

“A lei de combate aos maus-tratos entrou em vigor em setembro de 2013. Ela foi criada como resposta ao suicídio cometido por um estudante em 2011, o qual vinha sendo vítima de agressores em uma escola secundária na cidade onde residia.”

— Alternativa

Os maus-tratos praticados online se deu em 20% dos casos levantados e mais da metade envolviam prostituição e pornografia infantil, pois em alguns casos, as vítimas foram forçadas a postar imagens explícitas nas redes sociais.

Mesmo o Ministério da Educação pedindo para as escolas manterem contato com a polícia sobre o bullying contra os alunos, principalmente aqueles que envolvem a internet, porque as imagens publicadas são difíceis de apagar, ainda assim o número de denúncias é só uma fração do número total.

“Além disso, preocupações adicionais surgem com o aumento do envolvimento de menores em crimes online, como resultado de interações em redes sociais. O crescimento significativo desses casos ressalta a necessidade urgente de conscientização sobre os perigos da internet e a implementação de medidas para proteger os jovens contra ameaças online.”

— Japão Aqui

É importante falarmos sobre como o bullying é prejudicial a todos, não apenas no Japão, mas no Brasil, não é bonito e não é normal fazer esse tipo de coisa contra as pessoas porque esse tipo de “zoação” é pautada em preconceito e crimes de ódio, está na hora dos governos e das escolas realmente se preocuparem em fazer algo para acabar com isso ou a situação tende a piorar, se nada for feito, então que as escolas sejam punidas com multa até aprenderem a não deixar esse tipo de coisa acontecer.


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