Desabafo: Lost Judgment e a minha visão sobre bullying!

 O enredo de Lost Judgment me deixou pensativa como uma vítima de bullying…

Personagem Takayuki Yagami com cabelos pretos desgrenhados abrindo uma porta de correr japonesa com a imagem de vários personagens do jogo com o logo Lost Judgment em branco. Fonte: https://store.steampowered.com/app/2058190/Lost_Judgment/

Não é novidade que eu sou apaixonada pela franquia Yakuza, eu apenas não pensei que estaria igualmente apaixonada pelos spin-offs também, nesse caso, Judgment e Lost Judgment, duas histórias envolventes com vilões que nos deixam pensativos e que mostra que tem muito potencial para virar uma série maior.

Lost Judgment é a sequência de Judgment, que conta a história do detetive e ex-advogado Takayuki Yagami. No segundo jogo, a história se passa uma parte em Kamurocho, localizado em Tóquio, e a outra parte se passa em Ijincho, localizado em Yokohama, o enredo gira em torno do bullying que, aparentemente, ocorre muito frequentemente por esses lugares e se tornou pior com a era dos smartphones.

É mostrado que dois amigos de Yagami chamados Sugiura e Tsukumo, abrem uma agência de detetives em Ijincho com o nome de Yokohama 99 (eu entendi a referência), eles receberam um pedido do presidente de uma escola chamada Seiryo High School de investigarem se ocorria bullying dentro das dependências da escola, o motivo teria sido porque dois casos suspeitos haviam ocorrido e que estavam relacionados a instituição: O primeiro caso seria de um aluno chamado Toshiro Ehara, que teria se suicidado em sua casa, a suspeita na época é que o motivo do suicídio teria sido o bullying que ele sofreu na escola, o que fez com que o pai de Toshiro processasse a Seiryo High School, porém, a sentença do juiz inocentou a escola por não haver evidências o suficiente que provasse o bullying.

A segunda situação que fez o presidente entrar em contato com a Yokohama 99 era que um professor estagiário da Seiryo High School havia desaparecido misteriosamente, nunca mais havia entrado na escola, ele era um professor que os boatos diziam que praticava bullying com os alunos, este professor, mais tarde, foi encontrado morto e se decompondo dentro de um prédio abandonado em Ijincho, o que mais tarde foi suspeitado que o pai de Toshiro foi quem havia feito isso, já que na infância, o professor era colega de escola de Toshiro e praticava bullying com o menino.

Por essa razão, Sugiura e Tsukumo chamaram Yagami, que acompanhado de seu parceiro e ex-yakuza Kaito, se dirigem a Ijincho para ajudar no trabalho e então acontecem alguns fatos que me fizeram refletir muito sobre bullying.

Em algumas câmeras escondidas implantadas na escola, o presidente junto com os detetives descobrem que uma menina chamada Koda sofre bullying de três estudantes: uma menina e dois meninos, todos eles fazem parte do clube de basquete da escola. Os boatos diziam que o professor desaparecido vivia fazendo piadas desconfortáveis em cima de Koda, ele a colocou no clube de basquete e ficava constantemente humilhando a menina, isso acabou motivando alguns outros alunos a fazerem o mesmo.

Depois que Yagami resolveu o problema, ensinando uma lição aos estudantes, uma cena que chama atenção foi a de um dos estudantes se aproximando de Koda e pedindo desculpas por ter praticado bullying com ela, a menina fica com raiva e apenas vira as costas, voltando a entrar na sala de aula, nisso, Yagami fala algo como: “Você não pode esperar que ela perdoe você!”, no que o menino responde com “Eu sei”.

Isso me deu um nó na garganta porque eu entendi a frase do Yagami e eu entendi a reação da Koda, fui uma pessoa que sofri bullying na sexta série e isso começou por causa de uma professora de Educação Física, na época, a minha mãe estava sabendo e várias vezes tentou conversar com as diretoras, assim como com as professoras, ninguém nunca se empenhou em acabar com aquilo, precisei trocar de escola porque nada era resolvido, por sorte, meu bullying foi mais verbal, eu nunca apanhei, embora uma vez quase tomei um soco de uma menina por causa de uma cadeira que não havia sido eu quem pegou.

Muitas pessoas me falam que eu deveria perdoar as pessoas que fizeram bullying comigo ou esquecer, afinal, anos se passaram, além que essas pessoas nem devem lembrar mais o que fizeram para mim, mas a verdade, é que quem bate esquece, quem apanha nunca vai esquecer.

Todas as pessoas que fizeram bullying comigo conseguiram seguir as suas vidas, hoje estão casadas, bem sucedidas, morando fora do país, provavelmente porque tinham autoestima, coragem e confiança para se lançarem ao mundo, mas eu não me sinto assim, exatamente por causa dos traumas que o bullying no qual eles não lembram que fizeram comigo causou, eu não consigo chegar em uma pessoa que eu gosto para conversar ou tentar algo porque me acho feia, horrorosa, porque alguém gostaria de ficar comigo? Eu não era a filha do Chucky, como me chamavam na época?

Muitos falam que eu deveria fazer uma terapia, sim, eu deveria, mas eu não tenho dinheiro e muito menos convênio para fazer uma terapia, e de graça, ninguém faz, já tentei pelo SUS da minha cidade e o CAPS apenas atende casos graves de transtornos mentais, o que não é meu caso.

“Entre as principais consequências do bullying, estão as suas sequelas que são impressas na fase adulta posteriormente. Mesmo que a mídia associe o bullying às sequelas físicas, na verdade, entre as principais consequências do bullying, estão as psicológicas e comportamentais, muitas vezes ainda sentidas na fase adulta.”

— Psicólogos Berrini

O bullying afeta muito o psicológico das pessoas na fase adulta, elas sentem medo de conversar com as pessoas, medo de serem rejeitadas, as vezes preferem ficar em casa ao invés de sair na rua, as pessoas acham que praticar ou sofrer bullying não é nada muito grave, mas a verdade é que quem sente de verdade sabe como isso afetou negativamente a sua vida, ainda mais se não teve nenhum apoio de quem deveria proteger, muitos dizem que sofreram bullying na infância e não morreram, mas se olhar bem profundamente nessas pessoas, elas geralmente explodem esporadicamente, possuem algum vício ou são completamente sozinhas, porém, colocaram na cabeça que isso é coisa delas e não dos traumas que sofreram na infância.

Os Psicólogos Berrini compartilharam como um estudo na Inglaterra falou sobre as consequências do bullying na vida adulta, essa prática acaba trazendo problemas de saúde, sociais e até mesmo problemas com a identidade da pessoa, essas sequelas e cicatrizes perseguem a pessoa pelo resto da vida, a pessoa pode desenvolver depressão, baixa autoestima, ansiedade, abuso de substâncias e até mesmo transtornos como fobia social, ansiedade, estresse, pensamentos suicidas, sentimentos de culpa, pode ficar neurótica e até mesmo ter surtos repentinos de raiva.

Além disso, a vítima pode diminuir a sua expectativa de vida, pode passar por transtornos alimentares que podem causar obesidade ou anorexia e bulimia, além de aumentar o risco da aparição de câncer, úlceras, diabetes, AVC e até enxaquecas.

Segundo a Rede de Ensino Santa Mônica, a Microsoft chegou a realizar uma pesquisa onde confirmava que 43% das pessoas no Brasil afirmaram terem se envolvido em bullying, sendo elas agressores, agredidos e até mesmo espectadores, as gerações mais afetadas seriam as chamadas Y e Z que indicaria um aumento na prática com o passar dos anos.

O IBGE também fez a sua pesquisa falando que 13,2% dos adolescentes, mais de um a cada dez, falaram que já se sentiram ameaçados, ridicularizados e até mesmo intimidados nas redes sociais, 16,2% das  meninas são afetadas enquanto 10,2% dos meninos são afetados.

A gente não tem apenas o bullying praticado em escolas, atualmente temos o termo cyberbullying que se refere a práticas ofensivas na internet que tem aumentado com a era das redes sociais e dos influenciadores, se vocês abrirem os comentários de qualquer vídeo, é uma ofensa atrás da outra e as vezes é gratuito, outro termo conhecido é o mobbing, que seria a mesma prática, mas no ambiente profissional, depois que a pessoa já é adulta, geralmente, causadas por causa das hierarquias, rivalidade entre colegas e etc.

“É bastante comum que o bullying deixe marcas mesmo que as pessoas não percebam. Durante uma fase de autoafirmação e construção de uma personalidade, os reforços negativos podem moldar um cérebro em desenvolvimento e criar noções de si que permanecem por toda a vida.”

— Rede de Ensino Santa Mônica

A verdade, é que mesmo o bullying sendo em maior ou menor grau, esse tipo de violência, assim como tantas outras como preconceitos, agressões físicas e assim por diante, sempre deixarão marcas nas vítimas, então é muito importante ter um amparo e uma prevenção que devem ser tratadas e praticadas com bastante seriedade, sem menosprezar o sofrimento da vítima, que infelizmente, é o que acontece em muitos casos, principalmente no bullying, onde os pais acham que se resolve com uma briga na hora da saída ou que é mimimi, e onde as escolas acham que apenas uma palestrinha e mandar ler um livro resolve, como foi o meu caso.

Claro que os agressores que praticam bullying tratam tudo como uma mera brincadeira, afinal, provavelmente são crianças que convivem em suas casas com pais ou responsáveis fazendo piadinhas um contra o outro apontando as falhas de cada um, para eles, isso é algo comum, por isso que eles não lembram, além disso, uma grande porcentagem desses agressores querem se destacar em algum grupo específico dentro da instituição como uma forma de evitarem ser uma vítima de bullying, isso não justifica o ato, afinal, não é traumatizando uma pessoa que você deveria se destacar dentro de algum grupinho.

“Segundo Souza (2019), quase sempre as testemunhas assistem à cena violenta, não intervindo ou tomando partido. Por outro lado, Toffi et al. (2011 apud Souza, 2019) afirmam que por meio desse comportamento, geralmente a vítima se sente imbuída de culpa, considerando-se o vetor responsável pela agressão, potencializando ainda mais o sentimento de impunidade na vítima, já que, em sua maioria, essa violência é praticada na frente de outros alunos.”

— Kevin Barbosa Ferreira e Matheus Garcia Coelho.

As pessoas que assistem sem fazer nada, geralmente não querem se envolver, acham que aquilo não é da sua conta, tem medo de apanhar ou ser o próximo, até mesmo não sabem a quem recorrer, por isso se tornam meros espectadores, isso acaba aumentando a raiva dentro da vítima em relação ao ocorrido.

Pensando pelo lado de quem assiste esse ocorrido, eles realmente não tem a quem recorrer, afinal, por muitas vezes, a escola ignora esse tipo de coisa achando que é apenas brincadeiras entre crianças e até mesmo normalizando esse tipo de situação, quando eu sofri bullying e minha mãe foi conversar com a diretora, ela respondeu: “Faz bullying com eles de volta!”, isso não é uma maneira correta de resolver o problema, pareceu que ela estava lavando as mãos em torno da situação.

Em 2023, o Brasil teve um caso de bullying pesado no Ceará, uma criança de 11 anos teve os pés e as mãos amarrados pelos colegas de escola e a situação foi filmada, o vídeo chegou a circular nas redes sociais com o menino sendo agredido verbalmente enquanto estava amarrado sentado no chão.

A mãe veio a público falar que o filho sempre sofreu bullying na escola, mas que ela nunca teve nada que pudesse provar o ocorrido para os diretores, ela disse que o filho sempre contava sobre as agressões para a mãe, mas nunca tinha nenhuma prova para mostrar aos professores e aos diretores, pois ela já havia ido a escola reclamar do ocorrido e eles teriam dito que era apenas uma brincadeira de criança, o menino ficou melhor da agressão, mas não quis mais sair de casa.

E para não falar que o bullying é uma coisa presente apenas no Brasil, há alguns anos, aconteceu um caso na Escócia, onde uma menina foi empurrada da escada na escola que estudava, na época, os pais da vítima ficaram revoltados, e com razão, porque os agressores haviam sofrido punições consideradas leves.

Os pais falaram que a menina já vinha sofrendo bullying verbal há três anos quando foi empurrada da escada no final do ano de 2020, os funcionários que presenciaram a agressão relataram que haviam empurrado a menina com muita força, a mãe relatou que não tiveram grandes punições, a escola apenas conversou com os envolvidos e falaram que tomariam medidas restaurativas.

“Seus pais a tiraram da escola em maio de 2021 para permitir que sua filha se recuperasse do trauma. No entanto, as cicatrizes emocionais deixadas pelo bullying permanecerão com ela pelo resto de sua vida, disseram os pais.”

— The Courier

Na época do ocorrido, os pais da menina procuraram a polícia que afirmaram não ter o que fazer com aquilo porque o incidente ocorreu dentro da escola, a menina ficou tão traumatizada que desenvolveu distúrbios alimentares, começou a se automutilar e até mesmo tentou suicídio.

A menina começou a sentar na primeira fileira para que os professores pudessem ficar de olho nela, nos intervalos, ela ficava dentro da sala de aula enquanto os agressores podiam sair e brincar com as outras crianças como se nada tivesse acontecido, a menina continuou sofrendo bullying até os pais a retirarem da escola.

Os pais estavam lutando para que as escolas levassem o bullying mais a sério, pois se isso não era aceito em um ambiente de trabalho, porque dentro da escola, nada era feito em relação a isso? Já a escola falou ao The Courier que a instituição fazia de tudo para reduzir o bullying, mas que não comentavam casos individuais, como sempre, tirando o deles da reta.

“As escolas não podem ignorar a existência do bullying. É fundamental que se criem políticas públicas para tornar o assunto presente em todas as escolas, de maneira permanente, por meio de programas anti-bullying. A direção escolar precisa encarar o assunto com seriedade e trabalhar o tema com os alunos desde cedo, para conscientizar as crianças sobre o respeito às diferenças e à individualidade.”

— Revista Crescer

Espero que um dia, nós possamos viver em um mundo onde esse tipo de coisa não é permitida e que tanto os agressores como seus pais tenham as devidas punições relacionadas a isso, além de também se ter uma política pública voltada a saúde mental de quem sofre todos os tipos de agressões de forma gratuita, assim, evitando que mais crianças sejam traumatizadas e impedidas de viver suas vidas por causa de traumas.



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