O Pior Halloween de 2022: Itaewon
O Halloween de Itaewon entrou na lista das 10 maiores tragédias de multidão do século XXI.
Você já presenciou muitas tragédias no Brasil, tivemos a queda do avião do time de futebol Chapecoense, tivemos a tragédia na Boate Kiss que matou 242 pessoas dentro de uma boate em Santa Maria no Rio Grande do Sul, a tragédia em Brumadinho que dizimou boa parte da cidade e de seus habitantes, por aí vai, também sabemos como isso ocorre, geralmente é por causa de negligência das outras pessoas ou empresas, mas acreditem em mim, isso não acontece apenas aqui no Brasil.
Hoje quero falar sobre o Halloween de Itaewon, considerada a pior tragédia da Coreia do Sul, K-Dan fez um vídeo falando sobre o assunto em um episódio do seu quadro chamado Ásia Investigação, mas não trarei apenas ele como fonte, pesquisei mais algumas coisas na internet para acrescentar.
Itaewon é um bairro localizado no distrito de Yongsan em Seul na Coreia do Sul, é conhecido por ser um bairro movimentado, lembrado como o local da vida noturna da capital, pois tem muitas baladas, restaurantes, lojas e está sempre lotada de jovens.
Um dos principais eventos de Itaewon é a festa de Halloween que acontece todos os anos em Outubro, onde a galera se fantasia, tira fotos com os amigos, vão para as baladas e para os bares ao redor do bairro para se divertir e curtir o evento, mas no dia 29 de Outubro de 2022, era esperado 100 mil pessoas presentes no evento, e tudo começou quando as 18:34 da tarde, a polícia recebeu uma chamada de um cidadão que falou sobre a quantidade enorme de pessoas, mas a denúncia foi ignorada porque parecia apenas se tratar de uma reclamação sobre algo tolerável para a polícia, essa seria a primeira de nove ligações feitas a polícia durante as 3 horas e 40 minutos que antecederam a tragédia que ocorreu as 22:15 da noite.
Em Itaewon existem duas vias grandes, uma delas é apenas para passagem de carros, onde fica o metrô e ali seria o ponto de encontro das pessoas para chegar no evento, já a outra via é uma rua que tem muito comércio, onde as pessoas vão comemorar, mas para ir da rua dos carros até a rua do comércio é um beco que liga as duas vias, nesse beco tem um hotel que foi comentado pelas pessoas durante a tragédia chamado de Hotel Hamilton. Esse beco tem 4 metros de comprimento e 4 metros de largura, tamanho menor que o permitido pela lei de construção para as pessoas trafegarem de forma segura.
As pessoas estavam caminhando em direções opostas umas das outras, porque a via dos carros não foi bloqueada, então os veículos passavam livremente, as pessoas atravessavam de um lado para o outro e entravam no beco para chegar na rua dos comércios, porém, nessa via, também haviam pessoas que estavam saindo dos comércios para chegar até o metrô, então 100 mil pessoas caminhando em direções opostas estava causando uma muvuca insana.
Chegou em um ponto que as pessoas não conseguiam apenas andar, elas não conseguiam, nem mesmo, respirar, pois um especialista realizou uma análise e explicou que através das filmagens e fotografias daquele dia, haviam de 12 a 16 pessoas abarrotadas em apenas um metro quadrado, o que indica que elas não teriam nem espaço para respirar, além disso, é afirmado que o piso do local estava escorregadio, pois era feito de pedra lisa e havia álcool no chão, que havia sido derrubado por causa das bebidas derramadas, nas quais as pessoas estavam segurando enquanto andavam, além dos panfletos jogados no chão, também havia mulheres andando de salto alto pelo local, então o ambiente estava propício para as pessoas caírem facilmente naquele espaço.
Em uma situação de multidão, se um cai, outros caem por cima, isso provoca uma reação em cadeia onde um cai por cima do outro e isso vai comprimindo a pessoa que está embaixo, então não tiveram apenas pessoas que morreram por asfixia, mas também, pessoas que morreram esmagadas.
O beco estava lotado, mas a maioria das pessoas não conseguia controlar a ida para lá, mesmo que muitas pessoas não quisessem chegar naquele local, eles eram arrastados para lá contra a sua vontade, pois não conseguiam andar de acordo com o que queriam, então eram levados pela multidão, seguindo o fluxo.
Ás 22:37 da noite, as pessoas começam a ser resgatadas por paramédicos e bombeiros, esse processo demorou muito porque as ruas estavam lotadas de pessoas e o trânsito estava congestionado, as pessoas faziam de tudo para as ambulâncias passarem, mas o tráfego estava um caos, então muitas coisas prejudicaram o salvamento, pois com toda essa demora, os paramédicos e os bombeiros perdiam mais tempo ainda para poder resgatar as pessoas que sofriam com parada cardiorrespiratória, além disso, muitas vítimas não sabiam a quem recorrer para pedir socorro, por ser uma festa de Halloween, muitas pessoas estavam vestidas de médico, enfermeiro e bombeiro, então a maioria não sabia se aquela pessoa vestida daquele jeito era mesmo uma ajuda ou se era uma outra vítima passando pela mesma situação.
Vocês podem achar que a polícia fez alguma coisa, mas na verdade, a polícia foi considerada um dos maiores problemas do caso, porque demoraram muito mais tempo para chegar, além disso, nenhum alerta foi emitido e nenhum aviso prévio foi dado avisando a quantidade de pessoas que teriam nesse evento, mesmo sem esse aviso, eles saberiam que teria muita gente, pois foi o primeiro Halloween que a Coreia do Sul teve após a pandemia, então não reuniria apenas os sul-coreanos, como também, estrangeiros.
No local que já estava programado para ter 100 mil pessoas, haviam apenas 137 policiais presentes no local, pois os demais policiais estavam cuidando do presidente, já que no mesmo dia, tiveram vários protestos na Coreia do Sul contra o governo dele, então vários policiais estavam cuidando das manifestações, alguns até estavam na mesma região de Itaewon, mas estavam perto da casa do presidente, haviam cerca de mil policiais próximos da casa dele, enquanto apenas 137 policiais estavam em Itaewon cuidando de 100 mil pessoas no Halloween.
O que piora essa situação é que os 137 policiais presentes no Halloween não estavam ali para cuidar do fluxo de pessoas, porque eles não tinham segurança pública como a sua principal função, a maioria deles não estavam fardados, pois estavam participando de uma operação secreta da polícia por causa da lei anti-drogas do país, pois o presidente focou em criar um país drug free no Halloween por ter muitos jovens participando do festejo, deixando de lado a superlotação.
Os policiais que estavam lá e que se dirigiram para o local não tinham preparo para realizar uma evacuação, além disso, eles não entendiam a arquitetura do beco, pois ele é íngreme, mas tem uma parte plana no meio, além disso, algo que ajudaria na evacuação era abrir a saída de emergência do Hotel Hamilton para colocar as pessoas lá ou transferir os feridos para essa saída, mas isso não foi pensado por eles.
O chefe de polícia de Yongsan disse que chegou 5 minutos depois que a tragédia começou, além disso, ele precisava ligar para os seus superiores e pedir reforços, mas ele apenas fez isso as 23:34 da noite, para piorar, a ligação não foi atendida e foi retornada três minutos depois. O ministro da segurança e administração interna da Coreia do Sul recebeu um relatório do que foi feito pelo Centro Nacional de Gestão de Desastres antes do chefe de polícia de Seul, enquanto os bombeiros estavam respondendo tudo com muita agilidade, ainda antes disso, o escritório presidencial recebeu o aviso da tragédia diretamente dos bombeiros.
Mais tarde, durante as investigações, foi descoberto que o chefe de polícia de Yongsan mentiu, enviou um relatório falso porque ele chegou no local por volta das 23:50 da noite, mesmo que a delegacia ficasse muito perto de onde estava ocorrendo a tragédia, além disso, semanas antes do dia 29 de Outubro, já haviam indícios de que algo ruim poderia acontecer, porque a delegacia do bairro emitiu uma nota de segurança prevendo as mais de 100 mil pessoas que estariam reunidas no distrito e planejando a presença de 200 policiais, mas diferente dos outros anos, não foi anunciada nenhuma medida que controlasse a multidão e que prevenisse os esmagamentos, também, a organização do bairro indicava problemas porque no local onde ocorreu a tragédia tem muitos bares populares, mas existe um bar específico que tem uma fila enorme que bloqueia a rua, o que estreita mais a passagem. Os comerciantes locais já haviam relatado esses problemas de congestionamento antes.
Outro fator que também foi falado estava relacionado ao Hotel Hamilton, eles realizaram uma ampliação ilegal fazendo com que o beco, que tinha quatro metros de largura, fosse diminuído para três metros de largura, esse hotel passou nove anos pagando um valor exorbitante em multas administrativas porque não davam a mínima para o assunto.
Um mês antes da tragédia, foi feito um relatório para o Chefe da Inteligência da Polícia de Yongsan avisando sobre a quantidade de pessoas nesse Halloween e que precisaria de mais mão de obra para evitar uma tragédia, mas esse relatório foi ignorado duas vezes por acharem que a polícia deveria estar presente em outros lugares, quando as investigações começaram, o Chefe da Inteligência pediu que um funcionário apagasse o relatório do computador da polícia, as investigações descobriram isso, mas não tinha o que ser feito porque esse funcionário foi encontrado morto em sua casa, além disso, essa decisão de deletar o relatório não partiu do funcionário, e sim, do Chefe da Inteligência da Agência Metropolitana da Polícia de Seul, essa pessoa responsável foi afastada do cargo.
A polícia e a prefeitura tentaram se eximir da culpa, falando que não dava para oferecer controle de multidão do nada para o Halloween, isso deixou a população sul-coreana confusa porque no mês anterior, teve outro evento em Itaewon que tinha a presença da polícia organizando a multidão, os shows de K-Pop também tiveram 1300 policiais para 50 mil pessoas, isso teria sido organizado pela prefeitura.
O Dan explica no vídeo que isso ocorre porque o evento que teve a presença da polícia em Itaewon foi organizado pela prefeitura e o show de K-Pop tem segurança pública porque a empresa entra em contato com a prefeitura, no caso do evento de Halloween que culminou na tragédia, era apenas organizado pelas pessoas, então existe uma lei onde os policiais não podem fazer organização em massa de eventos nos quais eles não tem base legal e institucional para operarem que não seja manifestação ou protesto. Os advogados relatam que essa lei não é específica, mas existe uma outra lei bem específica para isso, mas que tem brechas, a lei afirma que pode ter medidas de segurança de controle de multidão em eventos que tenham uma pessoa organizando, então há um impasse na lei da Coreia do Sul sobre isso, ou seja, para realizar uma organização em massa, precisa de uma pessoa, uma instituição, um CNPJ que organize o evento, mas em vários momentos, essa lei foi relativizada, por exemplo, na pandemia, onde a polícia fez controle de massa em eventos parecidos com o do Halloween, onde não havia ninguém organizando, usando a pandemia como pretexto.
Independente disso, o Supremo Tribunal da Coreia deixou claro que, mesmo com a falta da lei, o Estado tem a obrigação de intervir nessas situações em que a vida e a segurança da população esteja em risco, senão, esses direitos não podem ser garantidos, então em situações de perigo iminente, é dever do Estado atuar para acabar com esses riscos, mesmo sem base legal explícita e formal.
Outra coisa que também foi comentada é que as 21:07 da noite, cinco ligações foram feitas para a polícia indicando o risco de sufocamento na região, sendo classificadas como código 1, mesmo assim, a polícia não atendeu as chamadas e os 137 policiais estavam fora da função deles, tentando ajudar e precisavam de reforços, eles relataram isso, inclusive, muitos perfis anônimos apareceram se queixando disso, um deles falou que precisa passar por um questionário com 14 questões para pedir um contingente e se uma das respostas não for aceita, terá que fazer um contingente novo, além de outros problemas relatados depois, inclusive, atrasos no atendimento as vítimas e o atraso no suporte a elas também.
Os necrotérios e os hospitais da região ficaram lotados, mas as investigações trouxeram punições, o Ministro da Segurança sofreu impeachment por não atender o incidente corretamente, o Presidente foi criticado por ter policiais ao seu redor enquanto as vítimas estavam precisando e também pelas suas falas depois da tragédia, ele pediu para os oficiais pararem de chamar a situação de desastre e parar de chamarem as pessoas que sofreram com a tragédia de vítimas, alegando que os documentos oficiais deveriam ter chamado a situação de acidente e as fatalidades deveriam ser chamadas apenas de “pessoas que faleceram”, tiveram mais algumas falas que depois, precisaram de retratação.
Muito foi falado sobre a atitude do presidente, pois ele parecia nervoso e com medo de sofrer um impeachment, já que uma presidente anterior sofreu um impeachment após uma tragédia anterior, como a opinião pública estava contra ele, estava com medo de sofrer impeachment, tanto que quando ocorreu o impeachment do Ministro, ele foi contra, a maioria do parlamento foi a favor do impeachment.
Alguns sobreviventes da tragédia falaram seus relatos sobre aquele dia, falando que muitas pessoas presentes ali continuavam bebendo e dançando com a música alta mesmo com pessoas mortas ao lado e com outras pessoas tentando ressuscitar. No memorial é lembrado que uma menina passou com a mãe em um dia e a menina perguntou o que tinha acontecido e porque aquelas pessoas morreram, a mãe respondeu que aquilo não aconteceria com a menina, porque ela se comportava. Esse não foi o único descaso com a tragédia, os apoiadores do presidente xingavam os familiares das vítimas nas redes sociais e quando os familiares protestaram por causa da tragédia, alguns dos apoiadores usaram megafones para gritar que a tragédia era um plano da Coreia do Norte, que nada teve a ver com a situação.
Essa tragédia, assim como as tragédias em outros lugares com pessoas jovens em festas causadas por negligências dos donos, organizadores ou do governo, como foi esse caso, também tiveram comentários babacas e maldosos contra as vítimas, falando coisas horrendas sobre estarem festejando naquele dia e até mesmo contra sobreviventes que perderam pessoas e foram desabafar, o que mostra a falta de empatia de uma sociedade que mostra estar doente.
As investigações do caso terminaram em 2023, cerca de 23 oficiais foram responsabilizados pela tragédia por causa da falha na segurança e essas acusações foram mostradas para a promotoria, os investigadores afirmam que a tragédia foi causada porque as autoridades falharam em elaborar medidas preventivas e também falharam em responder rapidamente uma emergência, além disso, também verificaram que as autoridades não tomaram as medidas adequadas como pedem os manuais de como lidar com um desastre.
“Entre os acusados por negligência profissional resultando em morte estão o prefeito do distrito de Yongsan, Park Hee-yeong, e o então chefe da Delegacia de Polícia de Yongsan, Lee Im-jae. Quatro outros funcionários do distrito de Yongsan e da polícia também foram encaminhados aos promotores por negligenciar medidas preventivas. No entanto, o prefeito de Seul, Oh Se-hoon, o ministro da Segurança, Lee Sang-min, e o chefe da polícia nacional sul-coreana, Yoon Hee-keun, não foram incluídos nessa lista.”
O ex-chefe do departamento de inteligência da Agência de Polícia Metropolitana de Seul e dois oficiais de inteligência do alto escalão foram presos, indiciados por excluir relatórios internos que alertavam sobre a superlotação no Halloween, além de acusarem os proprietários do Hotel Hamilton por terem instalado estruturas ilegais no beco.
É um absurdo que as autoridades ainda sejam falhas em tragédias como essa, seja por não melhorar a estrutura ou por não oferecer segurança para a população, muitos governos dão mais importância para a sua segurança, movendo autoridades para o seu bem-estar e esquecendo que comanda um país inteiro que também precisa que a autoridade esteja disponível.
Além disso, a falta de empatia das pessoas em tragédias como essa, faz com que a gente perca a fé na humanidade, porque se você acha que uma pessoa merece morrer por estar festejando, você é uma péssima pessoa! Todos merecem festejar com outras pessoas, ouvir música, beber e se divertir, não é apenas em balada que vemos esse descaso, em vários momentos acontecem descasos como esse ao redor do mundo, a culpa não é das vítimas, e sim, das autoridades e do governo que não dão o suporte devido para a população.
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