O que aconteceu no set de “Azul é a Cor mais Quente”?
Filme marcado por uma geração pela representatividade, acabou trazendo um caso de abuso.
Todos estão carecas de saber que quanto mais o tempo passa, menos filmes com representatividade para a comunidade LGBTQIAP+ estão sendo produzidos, o que parece estar matando a representatividade aos poucos, e quando tem alguma coisa, é algo mínimo que quase não ganha os holofotes, e se ganha, é para receber ódio de pessoas preconceituosas, ainda mais atualmente que estamos vivendo em uma era onde a geração mais nova está ficando tão conservadora quanto os conservadores que lutamos tanto contra para termos a nossa liberdade, mas em meio a tudo isso, um filme lançado em 2013 pareceu trazer o que a comunidade estava procurando, principalmente as sáficas.
O filme “Azul é a Cor mais Quente”, também conhecido pelo nome “La vie d’Adèle” é um filme francês que foi dirigido, co-escrito e co-produzido por Abdellatif Kechiche, um diretor franco-tunisino e foi estrelado pelas atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. O filme foi baseado em um romance chamado “Le bleu est une couleur chaude” do autor Jul Maroh e gira em torno da personagem chamada Adèle, uma adolescente francesa que descobre o que é amor e liberdade quando conhece uma pintora que possui cabelo azul, a história conta sobre a relação delas que dura anos desde o Ensino Médio, a vida adulta precoce de Adèle e a carreira como professora infantil.
O filme chamou muito atenção na comunidade LGBTQIAP+ por conta da exploração da sexualidade de Adèle, que se torna o cerne do assunto no filme, o amor entre duas mulheres é o ponto forte da obra, além disso, a diferença social também é explorada no filme, pois a família de Adèle representa uma classe média conservadora que fala sobre assuntos banais e acham que mulheres apenas podem ser amigas, diferente da família de Emma, que é a personagem aspirante a pintora, que tem uma família classe média alta de mente aberta que fala sobre temas existentes que são focados na arte, na carreira, na vida e no amor, além que a família dela sabe sobre o relacionamento homossexual entre as meninas.
A galera demorou para perceber que, mesmo o filme trazendo certa representatividade, ele ainda era um filme totalmente pautado na visão heterossexual e masculina, como é dito por Sophie Mayer do Sight & Sound, é um filme centrado em sucesso erótico e no fracasso do relacionamento entre duas mulheres como qualquer outra fantasia masculina sobre lésbicas. Também foi alegado por Kristin M. Jones na revista Film Comment que as amizades, ditas cultas, da Emma fazem observações sobre arte e sexualidade que aparentam representar a abordagem que o diretor teria com uma figura feminina.
Mas o que fez as pessoas largarem o filme de mão foi o abuso descoberto mais tarde, tudo começou com uma thread no Twitter, agora X, começando por fotos da atriz Léa chorando nas coletivas de imprensa do filme feitas para a divulgação do projeto em 2013, muitos veículos de imprensa postaram essas imagens dando a entender que ela estava emocionada, mas, na verdade, ela teve essa reação por causa dos abusos que sofreu no set de filmagens.
Uma coisa que tem no filme, é uma cena de sexo que dura sete minutos entre as atrizes, nas entrevistas, as atrizes afirmavam que usaram próteses de vagina durante as filmagens para as cenas de sexo que duraram mais de 10 horas consecutivas para serem filmadas e a atriz Adèle chorava durante as gravações por causa da dormência e do sangramento vaginal, mas era impedida de interromper com a cena, essas informações foram dadas pela Léa para uma revista chamada Esquire ainda no ano de lançamento do filme, ou seja, em 2013.
Léa também falou nessa entrevista que o diretor fazia as atrizes continuarem a rodar a cena mesmo com a vagina sangrando e, muitas vezes, ele colocou o dedo na vagina das atrizes e até nos seios delas para mostrar como elas deveriam fazer, inclusive, ela relata que as próteses machucaram as atrizes por dentro e o diretor teria sugerido filmar os machucados causados pelas próteses, as pessoas podiam ver que elas estavam sofrendo de verdade, também foi relatado pela Adèle que a Léa bateu nela durante as cenas várias vezes porque o diretor gritava para ela acertá-la com tom de humilhação e violência, depois, o diretor chegou a ser acusado de estuprar e agredir outra atriz que não foi identificada.
Além disso, Léa falou para o The Hollywood Reporter que tinha um coordenador de intimidade, mas que nem ele teria resolvido a situação e muito menos teria melhorado a dinâmica problemática que se instalou pelo set, alegou que não foi apenas a cena de sexo, mas a maneira como filmaram o filme todo foi insana e chamou o diretor de maluco.
Quando o filme lançou em Cannes, a equipe de produção francesa chegou a divulgar uma declaração do sindicato chamando o ambiente de trabalho no set como “anárquico”, já o diretor prometeu que entraria com ações legais contra a Léa por ela estar, supostamente, compartilhando informações caluniosas sobre o set de filmagens, inclusive, o diretor alegou que não queria que o filme fosse lançado no meio das polêmicas ao redor dele, dizendo para a revista Telérama que se sentiu humilhado na época por causa das alegações contra o seu “estilo de filmagem”.
Léa não se manteve calada e falou para o The Independent em 2013 que o diretor era um cara difícil de se trabalhar, quando ela decidiu fazer o filme, ela sabia que ele era assim, já a Adèle falou que sentiu vergonha quando filmou algumas cenas de sexo, ela filmou por tanto tempo que chegou a pensar que o diretor deveria parar por ali.
A Léa também relatou que se sentiu como uma prostituta e, as vezes, se sentia humilhada, além disso, relatou que o diretor usou três câmeras e ela teve que fingir orgasmo por seis horas, a filmagem demorou um ano da vida dela e ela havia dado tudo por esse filme, porém, isso mudou muito a vida dela em muitos níveis diferentes.
Essa não teria sido a primeira e a última vez que esse tipo de coisa aconteceu com esse diretor, pois em 2019, Kechiche causou um problemão em Cannes com um filme feito dentro de uma boate com imagens pornográficas consideradas gratuitas pela crítica. O nome do filme era “Mektoub My Love: Intermezzo” que entrou na disputa pelo Palma de Ouro, o filme se tratava do diretor filmando adolescentes em uma cidade localizada no litoral sul da França, depois disso, o filme se passa dentro de uma discoteca na maior parte do tempo com imagens lascivas, inclusive, com uma cena de sexo oral que durou 13 minutos, além disso, o filme tinha diálogos banais, e durante as três horas e meia do filme, o diretor pareceu se concentrar mais no corpo das mulheres, principalmente na bunda, que se movimentava o tempo todo durante a batida da música até chegar na cena de sexo oral no banheiro. O diretor justificou falando que tentou mostrar no filme o que fazia ele vibrar, os corpos e os ventres e que o projeto do filme foi feito para celebrar a vida, o amor, a música, o corpo e buscar uma experiência cinematográfica.
Além disso, no final de 2018, o cineasta já estava enfrentando denúncias, pois a Promotoria de Paris abriu uma denúncia de agressão sexual feita por uma jovem atriz que não teve seu nome divulgado, Kechiche chegou a negar a acusação, a atriz disse que foi agredida por ele no apartamento de um amigo em comum em Paris.
Em 2023, a Adèle deu outra entrevista, dessa vez para o Daily Beast onde detalhou ainda mais os bastidores e afirmou sobre ter percebido que o diretor esperava que tanto ela como Léa entregassem tudo, ela afirma que a maioria das pessoas não ousariam pedir as coisas que ele pediu e elas seriam mais respeitosas, ainda falou que as cenas de sexo costumam ser coreografadas, o que deixa o ato menos sexualizado. Na época, ela estava protagonizando o filme “Passagens” do diretor Ira Sachs, onde ela deixou bem claro a ele sobre as suas limitações para as gravações sobre cenas de intimidade com o seu parceiro de set, avisando que não tinha e não tem problemas com cenas de sexo, mas não queria que as pessoas vissem o corpo dela como viram antes, se referindo a “Azul é a Cor mais Quente”, então encontraram outro caminho, pois Ira Sachs não estava interessado em ver o corpo e os seios dela.
Em 2024, o site Ariadnes fez uma crítica sobre o filme, onde deixa claro que o filme tinha tudo para acrescentar muito socialmente para trazer representatividade para mulheres lésbicas, mas não foi isso que aconteceu, pelo contrário, a produção fetichizou os corpos das mulheres e as tratou como objetos sexuais.
É uma pena que esse filme tenha sido a única representação sáfica que as pessoas da comunidade tiveram na época, nós carecemos de mídias que sejam mais inclusivas e que não sejam escritas por homens brancos heteros e fetichistas, tudo que a comunidade quer é que mídias sejam feitas de forma decente sobre a nossa sexualidade sem serem objetos sexuais, fora o abuso contra as atrizes, isso é sem cabimento e é um absurdo que elas tenham sofrido uma violência tão grave dessas e nada tenha acontecido contra ele, mas o que falar de um mundo que nunca ouve a nossa voz, não é mesmo? Nos resta apenas torcer para que um dia isso mude.
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