O que foi o caso NTH Room?

 Um caso com cunho sexual digital chocou a Coreia entre 2018 e 2020!

Capa do livro The NTH Room Unnie's Story escrito por Forest Wardem com uma moça coreana mexendo no telefone em um quarto com a bandeira da Coreia do Sul no fundo. Fonte: 

Que o Telegram é palco de diversos supostos crimes não é novidade, a rede social já foi bloqueadas várias vezes no Brasil por não colaborarem com investigações de autoridades e o CEO da plataforma foi preso na França por permitir esses crimes de acontecerem, mas um crime dentro do Telegram que chamou a atenção foi o NTH Room ocorrido na Coreia do Sul.

O NTH Room foi um caso onde crimes sexuais ocorriam em grupos do Telegram que eram nomeados por números do 1 ao 8, nesses grupos, os usuários pagavam para ver mulheres, algumas até mesmo menores de idade, em atos sexuais humilhantes por meio de coerção, o responsável por esse absurdo era um homem de 25 anos, na época conhecido como Cho Joo-Bin, com mais de nove grupos privados na plataforma com homens que pagavam mais de 1000 euros, ele era o líder desse crime e chantageava as mulheres para ter esse tipo de conteúdo e vender o acesso a eles.

“Quando os grupos do Telegram se tornaram conhecidos nas comunidades online, o caso foi denunciado a polícia por uma pessoa que não teve sua identidade revelada, porém a polícia não considerou um relatório confiável e o ignorou. Em janeiro de 2019, o The Seoulshinmun Daily descobriu por meio de jornalismo investigativo, que havia um grupo secreto do Telegram que distribuía pornografia infantil. Da mesma maneira, em abril de 2019, o Sisa Journal informou que o Telegram estava sendo utilizado como plataforma de crimes, onde se realizava compartilhamento de fotos e vídeos ilegais.”

— Wikipédia

O que trouxe o caso a tona foram duas estudantes de jornalismo que descobriram tudo graças a um trabalho acadêmico de investigação sobre crimes sexuais online em Julho de 2019, mesmo que os grupos fossem privados, os acessos eram encontrados de forma fácil, pois bastava usar as palavras-chave na pesquisa, elas encontraram outros administradores, mas focaram em Cho Joo-Bin por possuir oito grupos na época, com alguns possuindo 9 mil membros e usava o codinome Baksa, que significa doutor ou guru em coreano.

A Agência Nacional de Polícia alegou que Cho estava sendo acusado de produzir e vender conteúdo sexual explorando menores de idade, pelo menos 74 mulheres, sendo 16 menores, foram abusadas sexualmente, exploradas e torturadas por muitos meses, as vítimas teriam sido escravizadas com a ameaça de que suas fotos nuas seriam distribuídas se não obedecessem as ordens dadas, elas também foram forçadas a tirar fotos e se filmar em atos libidinosos e desumanos.

“Na sala de bate-papo, cerca de 260.000 membros são suspeitos de assistir e compartilhar os vídeos. Cho e outros permitiram que os usuários acessassem o conteúdo em troca de pagamentos em criptomoedas. A polícia disse que Cho operava pelo menos 100 dessas salas de bate-papo e cobrava dos usuários entre 200.000 won e 1,5 milhão para participar.”

— Korea Times

No site Cheong Wa Dae, foi feita uma petição que 2,4 milhões de pessoas assinaram exigindo que a polícia revelasse a identidade dos suspeitos, o presidente da Coreia do Sul na época pediu uma investigação completa sobre os crimes.

Em março de 2020, a Polícia Metropolitana de Seul publicou em seu site oficial, um comunicado de imprensa sobre a prisão do suspeito, detalhando passo a passo tudo o que descobriram até aquele momento e deixando a população a par do que a investigação prometia a seguir.

As acusações contra Cho Joo-Bin eram tão sérias que os advogados de defesa dele se demitiram, na época, o escritório de advocacia falou para a CNN que o motivo da decisão teria sido porque as informações que haviam recebido da família dele quando aceitaram o caso eram muito diferentes dos fatos.

O problema maior nisso é que o Telegram é criptografado, isso significa que por causa do anonimato da plataforma, os participantes da sala de bate-papo permanecem em anonimato, além disso, em muitos momentos, Cho recebeu o pagamento em Bitcoin, no qual não tem um banco supervisionando as transações.

“Bitcoin é uma moeda descentralizada, o que significa que não há empresa ou banco oficial que supervisione as transações. Os usuários armazenam seu Bitcoin em uma conta virtual — conhecida como carteira digital — sem ter que provar sua identidade real, como fariam em uma conta bancária física comum.”

— CNN

Cho Joo-Bin tinha um esquema pronto para chantagear as suas vítimas, ele encenava como se fosse um policial em investigação e mandava mensagens diretas pelo Twitter fingindo ser uma autoridade, dando a entender que o conteúdo íntimo sobre essas mulheres teria vazado de alguma forma e que deveriam passar por um sistema seguro, era aí que ele enviava um link com a premissa de ajudar na prevenção de vazamentos indesejados, quando essas mulheres acessavam esse link, eram mandadas para um site com uma fachada parecida com o Twitter, mas na verdade, ligava ao servidor de Cho, ele recebia o login e a senha delas, e assim, ele ganhava o acesso aos dados pessoais e os conteúdos privados como fotos, endereços e até mesmo números de telefone.

Ao acessar o material coletado, ele contatava as moças fazendo chantagens com ameaças de divulgar as fotos e crimes mais sérios que podiam afetar a vida das mulheres e das famílias delas, em troca, elas deveriam aceitar serem feitas de escravas sexuais dele por uma semana, mas o período nunca era apenas uma semana, ele conseguia mais material privado que usava para praticar novas chantagens, enquanto ele lucrava com as pessoas pagando para acessar essas imagens.

“Inicialmente, o baksa foi divulgado sem identidade, porém, a emissora de televisão SBS revelou o nome e a identidade do criminoso, o que foi aprovado por uma comissão midiática da Polícia de Seul.”

— Aventuras na História

Esse caso chocou a sociedade sul-coreana, artigos científicos foram feitos em relação a esse caso, onde foi dito que se a sociedade se recusasse a abordar a realidade da situação, outra NTH Room surgiria, mas provavelmente com um nome diferente, então uma saída deveria ser encontrada em meio a esse evento trágico. Nesse caso, não é uma mentira, tivemos o caso Burning Sun e o caso do deepfake que também chocaram a sociedade sul-coreana.

“Estudiosas e ativistas feministas previram o Nth Room. Grandes redes de espectadores e distribuidores buscavam abertamente vídeos ilegais de mulheres por muito mais tempo. Aqueles que buscavam monetizar esse entusiasmo procuraram maneiras de filmar, produzir e distribuir conteúdo mais novo e estimulante, e fazer isso sozinhos. Explorar as mulheres mais vulneráveis da maneira mais desprezível é comum em indústrias violentas que obtêm lucro máximo com pouco ou nenhum custo financeiro inicial. Em 2018, sob o slogan “Minha vida diária não é sua pornografia”, as mulheres coreanas que vivem no mundo real formaram uma onda vermelha de dor e raiva reais causadas pela violência sexual digital. No entanto, seus esforços para comunicar a gravidade do problema eram frequentemente bloqueados pela zombaria dos homens: “O que você é, feminista?” Sem uma reflexão séria em nível coletivo e social, a questão tem sido tipicamente vista como um problema sexual perverso para alguns homens, ou como um problema levantado por um punhado de feministas fanáticas. A NTH Room do Telegram era uma calamidade esperando para acontecer.”

— Kim Joohee e Jamie Chang, Project Muse

A verdade é que não adianta nada esses casos chocarem a sociedade sul-coreana quando são expostos, se depois que tudo isso passa, é esquecido e ninguém faz qualquer coisa para impedir que novos casos aconteçam, mesmo que mulheres continuem expondo esses casos, o feminismo é algo ruim aos olhos dos sul-coreanos e apenas ganham voz quando jornais de outros países dão visibilidade, é quando eles vem a público falar que sentem vergonha, então está na hora das autoridades e dos políticos sul-coreanos tomarem uma providência para evitar que essas coisas voltem a ocorrer.

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