Vamos falar da Talidomida?
Esse medicamento causou má-formação em fetos por ser receitado para mulheres grávidas.
Que remédios causam efeitos colaterais dependendo do organismo já é algo conhecido por todos, isso faz parte de qualquer medicamento, sempre é escrito na bula sobre os possível efeitos adversos que podem causar, mas não são todas as pessoas que apresentarão esses efeitos, porém, o caso que mais chamou a atenção foi o medicamento chamado Talidomida que causou efeitos em muitas pessoas, principalmente, mulheres grávidas.
Talidomida é uma substância que é, geralmente, usada como sedativo, anti-inflamatório e hipnótico, seus medicamentos foram criados por um médico alemão chamado Heinrich Mückter que não é o melhor cara do mundo, pois fez experimentos da Talidomida e de outros medicamentos dentro dos campos de concentrações dos nazistas, pois ele testava remédios e vacinas nos prisioneiros sem consentimento, esse teste desenfreado sem permissão levou muitos a morte.
Precisamos relembrar que, nessa época, os procedimentos para testar medicamentos não eram tão rígidos como atualmente, então os testes feitos com Talidomida não revelavam os efeitos teratogênicos, os testes eram feitos em roedores que metabolizavam o medicamento de uma forma diferente dos humanos, então não apresentaram problemas, mais tarde os testes foram realizados em coelhos e em macacos, foi quando a substância apresentou os mesmos efeitos causados nos fetos humanos.
Em 1957, a Talidomida foi aprovada para tratar náuseas e vômitos na Alemanha, na Inglaterra e no Canadá, sendo receitada para as gestantes para aliviar os sintomas das primeiras semanas de gravidez, ela teve um grande sucesso terapêutico ao ponto de se tornar o medicamento mais vendido no mundo, sendo exportada para mais de 80 países e anunciada como um medicamento seguro.
De repente, muitas mulheres relataram sofrer abortos espontâneos, além de relatarem sobre recém-nascidos que apresentavam más-formações congênitas graves como focomelia, dismelia, amelia e até hipoplasia óssea, que são anomalias no desenvolvimento dos membros do bebê como braços e pernas.
A resposta veio em 1961, quando dois médicos independentes, um sendo dos Estados Unidos e o outro sendo da Austrália, confirmaram as suas suspeitas de que a Talidomida era a responsável por causar teratogenias graves em bebês de mães que usaram o medicamento nos primeiros meses da gestação.
O caso ficou conhecido como “desastre da Talidomida”, porque ao longo dos anos, sabe-se que teve, pelo menos, mais de 10 mil relatos de bebês recém-nascidos com más-formações, por causa disso, foram estabelecidos requisitos mais exigentes para que novos medicamentos fossem aprovados, com o objetivo de fornecer medicamentos mais seguros e eficazes para a população.
Hoje, o medicamento ainda é usado para o tratamento de algumas condições médicas que incluem hanseníase, mieloma múltiplo, cânceres e algumas complicações decorrentes do HIV, mesmo assim, em 2011, a ANVISA emitiu uma resolução para que houvesse um maior controle dos medicamentos que contém Talidomida na sua composição para controlar melhor esses medicamentos.
No Brasil, atualmente existe a Associação Brasileira dos Portadores da Síndrome da Talidomida, também conhecida como ABPST, onde o site explica tudo sobre o medicamento e a síndrome, é explicado que a Talidomida consegue ultrapassar a barreira placentária e interferir na formação do feto, a focomelia não seria o único efeito colateral, se a Talidomida for usada durante a gravidez, pode causar deficiências visuais, auditivas, problemas na coluna vertebral, e em casos raros, pode causar problemas no tubo digestivo e problemas cardíacos.
Por mais que a ingestão de um comprimido nos três primeiros meses de gestação cause um estrago, em 1965 foram descobertos os efeitos benéficos da Talidomida no tratamento de estados reacionais da hanseníase como falado anteriormente, mas não apenas para isso, também pode ser usada no tratamento de AIDS, LUPUS e doenças crônico-degenerativas como cânceres e até no transplante de medula, mesmo assim, ainda não se tem pesquisas que informem qual o período seguro para a substância ser eliminada pelo organismo, o prazo mínimo seria de 1 ano, mas não se tem muita certeza.
Infelizmente, mesmo ela sendo uma substância proibida, alguns médicos a receitam em casos especiais, porém, existem sanções legais informando que mesmo com a assinatura no Termo de Esclarecimento aos Pacientes e Termo de Responsabilidade Médica, tanto o médico como a paciente podem se responsabilizar pelo mau uso da Talidomida.
E não pensem que a Talidomida não tem avisos para os homens, viu? A bula do medicamento informa que os homens que usam a Talidomida e se relacionam ativamente com mulheres em idade fértil de forma sexual, mesmo tendo feito vasectomia, devem usar preservativos durante o tratamento com o medicamento e que é importante não doarem sangue e esperma, eles podem apresentar pseudo-abdomen e neuropatia periférica depois do uso contínuo da substância isso gera dores insuportáveis que apenas são aliviadas através de aplicações moleculares que custam caro e não são fornecidas pelo governo.
Existe uma pensão por danos físicos presente nas leis 7070 e 8686, a pessoa pode pedir a espécie 56 no INSS mais perto de sua casa, levando duas fotos, uma de frente e uma de costas em trajes de banho, radiografias das partes que foram atingidas, além de outros exames, caso tenha outras deficiências como de audição, visão e até em órgãos internos, e também precisa levar seus documentos pessoais como CPF, RG e comprovante de residência, é só protocolar tudo e esperar a perícia e os médicos do INSS deferirem ou indeferirem dependendo do caso.
Existem algumas coisas que é preciso saber sobre isso: As indenizações por danos morais apenas são pagas para quem recebe o benefício da lei 7070/82, a característica da Talidomida é a bilateralidade e simetria, ela não afeta um dos membros isoladamente, as outras deficiências citadas acima como audição, visão e órgãos internos estão acompanhadas das deficiências nos membros quando se trata dessa substância, além disso, muitas outras síndromes são confundidas com a Síndrome de Talidomia como Poland, Brida Aminiótica, Greber, Erictrodactilia, Roberts, Holt Oram, Pseu-tali, entre outras.
Também, as deficiências causadas pela Talidomida, não passa para o filho da pessoa que tem a síndrome e o INSS apenas reconhece as vítimas que nasceram a partir do dia 1º de março de 1958, depois do ano de 1965, a Talidomida já estava sendo administrada para hanseníase, por isso, não teria direito a pensão, isso foi esclarecido pela própria Associação Brasileira dos Portadores da Síndrome da Talidomida no site deles.
Mas vocês acham que a coisa para por aí? Não mesmo! No Brasil, em 2021, pelo menos cinco gestantes fizeram o uso de Talidomida desde 2011, mesmo que no ano mencionado, uma mudança e um controle mais rígido começou em relação a Talidomida, pois em 2011 uma regra foi criada no país porque a ANVISA publicou a Resolução de Diretoria Colegiada também conhecida como RDC controlando o uso da Talidomida de forma mais rígida.
Os cinco casos relatados ocorreram entre 2011 e 2019 no Piauí, Maranhão, Pernambuco, Goiás e Minas Gerais, um dos relatos dizia que um bebê faleceu logo depois do parto, outra mulher sofreu um aborto, uma outra criança teve embriopatia confirmada e outros dois bebês nasceram, mas tiveram embriopatia confirmada.
Essas mulheres teriam usado a Talidomida para tratar eritema nodoso hansênico, que é decorrente da hanseníase, mas o caso que chamou a atenção é de uma mãe do Piauí em 2015 que usou a Talidomida por oito anos, mas engravidou nesse período e o seu bebê nasceu com uma má-formação, a criança foi avaliada por uma médica geneticista e ela confirmou o diagnóstico de embriopatia causada pelo medicamento.
Vocês devem estar perguntando sobre os termos que mencionei anteriormente, certo? Pois então, nesse caso foi informado pela equipe médica local que a mulher foi orientada apenas verbalmente sobre os riscos do uso de Talidomida durante a gravidez, mas não se tem notícias sobre alguém ter sido responsabilizado por isso.
O acesso a Talidomida é muito restrito no Brasil, apenas pode ser acessado pelo SUS em unidades públicas muito específicas, com o controle sendo feito pelas vigilâncias sanitárias, podendo ser prescrito apenas por médicos e farmacêuticos registrados, ficou proibida qualquer venda ao público, assim como a propaganda e a distribuição de amostras grátis e também é proibida a presença de mulheres na linha de produção e na fabricação de Talidomida.
Como falei anteriormente e quero reforçar: Isso não quer dizer que a Talidomida é ruim, ela é uma substância muito eficiente em vários casos. Esse medicamento foi amplamente comercializado antigamente porque não havia uma fiscalização rigorosa com medicamentos onde testes decentes e éticos eram realizados por alguma vigilância, hoje, ele é um medicamento controlado e que deve ter termos assinados antes do uso, com a informação que temos atualmente, podemos cobrar quando médicos fazem uso sem os termos e sabemos que não se pode engravidar nesse meio tempo, porém, concordo que mais testes, estudos e pesquisas devem ser feitos com esse medicamento para saber quanto tempo a substância permanece no organismo.
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