A escola que inspirou Silenced
O que aconteceu nessa escola?
Imagem de homem usando camisa social branca e agasalho cinza abraçando três crianças de cabelo preso em meio a névoa na frente de uma escola. Série Silenced. Fonte: https://www.netflix.com/br/title/70241118
O filme Silenced da Netflix traz a história de Kang In-ho que está dirigindo para a cidade fictícia de Mujin, na Província de Jeolla do Norte para receber o cargo de professor de artes na Academia Ja-ae, uma escola de necessidades especiais para crianças surdas, ele está animado para ensinar, mas nota que as crianças são distantes, não recorrem á ele e ele começa a trabalhar para ensinar as crianças que ele é confiável, mas quando finalmente as crianças se abrem para ele é quando se descobre que as crianças sofrem abusos físicos e sexuais pela mão dos demais professores e da administração da escola.
Esse filme foi lançado em Setembro de 2011 na Netflix e deixou todos indignados com a história que era baseada em um fato real, isso resultou na reabertura das investigações do incidente e com mais de 4 milhões de pessoas da Coreia do Sul tendo assistido ao filme, a demanda por uma reforma legislativa chegou ao fim na Assembleia Nacional da Coreia do Sul, onde um projeto de lei chamado Dogani Bill foi aprovada para abolir o prazo prescricional por crimes sexuais e assédio contra menores e deficientes.
O caso real aconteceu na escola Gwangju Inhwa, fundada em 1961 que acolhia crianças surdas, eles ganharam notoriedade nacional quando décadas de abusos sexuais contra os alunos vieram a tona em 2005 e foi por meio do filme junto com a indignação pública que a escola foi fechada em 2011.
Na história real, em 2005, o professor Jung Yu-jin recebeu um telefonema de uma mãe que relatou sobre a amiga de sua filha ter sido agredida na escola em que ele trabalhava, ele tentou falar sobre a denúncia com os seus colegas e superiores, mas tudo era em vão e depois que ele alertou grupos de direitos humanos, ele foi demitido.
A verdade é que os relatos afirmam que o diretor da escola que foi identificado como Kim, tinha violentado sexualmente uma adolescente de 17 anos no seu escritório e tinha agredido fisicamente um estudante que foi a testemunha do crime, além disso, um funcionário da administração assediou sexualmente uma aluna de 22 anos e outro funcionário abusou sexualmente de meninos com 7 e 9 anos de idade, além de beijar uma menina de 9 anos.
Para vocês terem uma ideia, a instituição foi conhecida primeiramente como um Centro de Assistência Social para Surdos-Mudos de Jeonnam, depois veio a se tornar uma escola para os últimos anos do Ensino Fundamental, a parte do Ensino Médio foi inaugurada em 1993, o que fez com que a escola, no início dos anos 2000, atendesse 72 alunos, todos jovens com deficiência auditiva e ao longo de tantas décadas de funcionamento, os alunos estavam sendo expostos a vários crimes cometidos pelos funcionários contra os alunos.
Segundo a Revista KoreaIN, acredita-se que os crimes continuavam desde os anos 2000, seis professores e o diretor foram acusados de violentarem e abusarem sexualmente de, pelo menos, nove de seus alunos surdos entre 2000 e 2003, nove vítimas se apresentaram , mas tem vários outros casos que ficaram sem solução pois suspeitam que as vítimas ocultaram o crime por sentirem medo de represálias ou por causa dos traumas sofridos por quem deveria protegê-las.
É dito que dos seis agressores, apenas quatro deles receberam pena de prisão, os outros dois foram liberados imediatamente porque o crime havia prescrito, o Tribunal local condenou o diretor que era filho do fundador da escola a cinco anos de prisão e os outros quatro receberam penas relativamente severas, mas o Tribunal de Apelações reduziu a pena inicial concedendo liberdade condicional e uma multa de 3 milhões de wons para o diretor e penas mais leves para os outros criminosos, isso fez com que os criminosos presos tivessem dois libertados com menos de um ano de prisão, depois tiveram as suas penas suspensas, além disso, quatro dos seis professores foram reintegrados para a escola. O caso não ganhou notoriedade quando descoberto em 2005, mas a leniência da justiça foi criticada pelas vítimas e pelos ativistas de direitos humanos.
O juiz do Tribunal Superior de Gwangju, Lee Han-ju, afirmou que o caso foi resolvido entre os pais dos alunos e a direção da escola no decorrer do julgamento, os demandantes haviam desistido da ação, ele afirma que foi frustrante para os juízes e os promotores, mas os crimes de agressão sexual eram passíveis de denúncia, o que significava que uma vez que firmavam um acordo, nenhuma outra penalidade era buscada, essa lei foi revisada apenas em 2009 para exigir que todos os criminosos sexuais sejam processados mesmo sem a queixa apresentada pela vítima.
Infelizmente, a escola sobreviveu ao escândalo logo depois, as vítimas foram expulsas e abrigadas em centros de acolhimento, já a escola manteve 22 alunos e continuou recebendo 1,8 milhões de wons em subsídios estatais anualmente porque as autoridades educacionais locais não encontravam uma instituição para substituir a escola Gwangju Inhwa, o caso caiu no esquecimento de todos e só voltou em 2011 quando Silenced estreou e atraiu mais espectadores do que qualquer outro em gênero de drama na Coreia do Sul, e começaram a circular boletins online com 50 mil internautas instigando as autoridades educacionais a fechar a escola, também houveram campanhas públicas mobilizadas para abolir o prazo prescricional para crimes sexuais e em resposta ao clamor popular, a Agência Nacional de Polícia enviou investigadores especiais para a escola com o objetivo de apurar várias questões que incluíam violações de direitos humanos e até uma possivel fraude em contas bancárias.
A escola foi fechada pela cidade dois meses após o lançamento de Silenced, depois de seis meses de julgamento houve um novo inquérito aberto para averiguar os fatos, a lei Dogami foi criada retirando o prazo prescricional em casos de agressão sexual contra crianças menores de 13 anos e pessoas com deficiência, também aumentaram a pena para agressores de crianças e pessoal deficientes, além de excluir a cláusula que obrigava pessoas com deficiência a comprovarem que eram incapazes de se defender.
A KoreaIN também afirma que muitas vítimas foram levadas para o Hospital Gangnam Severance em Seul ainda em 2011 para seres examinadas por um psiquiatra, seis delas foram diagnosticadas com transtornos pós-traumáticos graves, como se não bastasse, as investigações de 13 suspeitos foram encerradas por falta de provas e outros sete casos foram arquivados.
Uma das vítimas chegou a dar entrevista para a SBS afirmando que os abusos começaram no Ensino Fundamental e os professores estavam cientes da situação, mas que em alguns casos, eles também estavam envolvidos ou ficavam em silêncio, os dados coletados pela emissora mostram que aproximadamente 30 alunos foram vítimas de abusos e violência, 10 professores foram apontados como agressores, entre eles, um em cada três alunos ou professores era do sexo masculino.
Uma das testemunhas, o professor de 71 anos chamado Kim Yeong-il disse que foi espancado e forçado a se demitir pelo diretor da escola e pelo irmão do diretor que trabalhava como vice-diretor em 1968, isso porque o professor descobriu que duas crianças tinham sido espancadas e deixadas para morrer de fome, os corpos dessas crianças teria sido enterrados secretamente em 1964, já outros ex-alunos alegam que o filho do presidente do conselho administrativo da escola obrigou duas alunas a ficarem nuas e tirou fotos delas em 1975 e acrescentaram que, no momento da entrevista, o agressor estava dando aulas de arte em outra escola da mesma cidade.
Muitos dos professores envolvidos se declararam culpados das acusações de abuso sexual nos processos subsequentes ao lançamento do filme Silenced e do livro que inspirou a obra, o ex-diretor foi condenado a oito anos de prisão em 2013 com 63 anos na época por agredir uma estudante surda de 18 anos em 2005, o perfil dele foi divulgado para o público e ele passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica ele também foi culpado por agredir fisicamente um outro estudante de 17 anos que testemunhou o crime e tentou suicídio em seguida, ele chegou a ser condenado a 12 anos, mas o Tribunal de Apelações conseguiu reduzir a pena para 8 anos.
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