A glamourização de distúrbios alimentares e automutilação no Tumblr
A rede social ficou muito conhecida em 2010, mas o que chamou a atenção foi a romantização de comportamentos autodestrutivos.
Imagem azul com o nome Tumblr em branco no centro da imagem. Fonte: https://www.techtudo.com.br/noticias/2013/02/tumblr-o-guia-definitivo.ghtml
Se você viveu o ano de 2010, você deve lembrar que muitas coisas se tornaram febre nessa época, como o Nyah Cat, coisas com estampa de bigode mustache, all-star, entre outras coisas, todas elas vieram de uma rede social: o Tumblr, um microblog que se tornou febre na época por você poder falar sobre o que você sente, escrever frases para publicar e rolava algumas postagens engraçadas as vezes. A rede social foi criada por David Karp em 2007 e foi vendida para o Yahoo em 2013 até 2018, onde quem assumiu foi a Automatic até os dias atuais e vou dizer que muita gente aprendeu a programar HTML por causa do Tumblr, já que você precisava usar essa linguagem de programação para criar temas para o seu blog ficar bonitinho, mas o que talvez você não sabia é que a rede social tinha muitas coisas controversas.
Quando você fala sobre Tumblr para alguma pessoa que viveu essa era, você pode ter certeza que ela vai comentar sobre as publicações de automutilação e de distúrbios alimentares. No texto que fiz sobre a magreza extrema, eu comentei que havia uma romantização escancarada do corpo extremamente magro ao ponto de colocar na cabeça das pessoas que a solução para esse problema era os distúrbios alimentares, e o Tumblr foi uma rede social que tinha muito disso, várias vezes eu entrei na rede social para ver as postagens de alguém e ter fotos de pulsos cortados, pernas mutiladas e, até mesmo, de corpos extremamente magros sendo exaltados.
Caso vocês não saibam, eu vou elucidar usando alguns artigos científicos, começando pelo documento chamado "Glamourização de distúrbios alimentares: movimentos pró-ana e pró-mia e a rede social Tumblr" escrito por Larissa Martins da Costa Passos Moreira e Rafael Grohmann, onde eles deixaram claro que os transtornos alimentares se tornaram ainda mais comuns quando os blogs chegaram na internet, pois as pessoas que sofriam de algum distúrbio conseguiam um meio para expor os seus pensamentos e falar sobre ideal da magreza, os objetivos e as formas de alcançá-los, esses relatos eram vistos como um estilo de vida e acabava atraindo outras pessoas que pensavam da mesma forma, elas sendo inseguras com os seus corpos e que buscavam formas para chegar nos corpos exaltados na televisão e nas capas das revistas.
Por incrível que pareça, esses blogs davam nomes carinhosos para os transtornos, além de dicas para evitar ingerir comida, como disfarçar os vômitos, e até recrutavam pessoas para passar vários dias de jejum ou comendo pouco, um exemplo desse tipo de comportamento era um blog chamado Diário de uma Pró-Mia, onde em uma das postagens de uma menina chamada Norah, ela falava que não entendia porque a condenavam quando a pegavam vomitando ou não comendo o dia todo porque ela estava apenas tentando ser feliz.
O artigo explica que esse movimento ganhou força na internet ao juntar as pessoas inseguras com a sua imagem corporal e acabaram migrando para outras redes sociais, foi no Tumblr que eles conquistaram mais espaço por causa da presença de muitas pessoas que se sentiam deslocadas na sociedade por outros motivos.
A verdade é uma só, a maioria das pessoas com distúrbios alimentares que sofriam com sua aparência eram mulheres, que são cobradas desde pequenas a performarem um padrão que foi imposto pela sociedade, afinal, a mídia é conhecida por diminuir a autoestima das mulheres usando imagens destrutivas e isso causa consequências graves na cabeça das pessoas, principalmente na fase da adolescência. Até hoje vemos muitas mulheres gastando muito dinheiro com procedimentos ou produtos para se tornarem um pouco das mulheres consideradas bonitas que veem na televisão, nos jornais e nas revistas, essa é uma arma comercial usada para que elas comprem produtos que não precisem e que as vezes nem funcionam, mas acreditam que sim, e as vezes, algumas fazem isso para conseguir a aprovação dos olhares masculinos, enquanto outras fazem isso para se sentirem bem consigo mesmas por estarem sendo pressionadas pelo padrão imposto.
Na época, os transtornos alimentares estavam sendo tão normalizados e glamourizados que eles receberam apelidos carinhosos, a Anorexia ficou conhecida como Ana e a Bulimia ficou conhecida como Mia, o motivo é que elas seriam lidas como duas meninas que te lembram dos seus objetivos ao vomitar ou passar o dia sem comer para impedir que a pessoa desista, elas passam a ser as amigas imaginárias da pessoa com transtornos alimentares, inclusive, as pessoas entravam nas comunidades Pró-Ana e Pró-Mia, e se deparavam com cartas que seriam essenciais para entrar no processo, os nomes eram Carta de Ana e Carta de Mia que tinham o intuito de fazer os distúrbios se apresentarem como duas amigas da leitora, sendo um compilado de pensamentos que começavam de forma carinhosa e gentil, para poucas linhas depois, ser brutal e hostil.
Em 2010, o Tumblr era a única rede social onde você seguia pessoas que você não conhecia, elas eram escolhidas pelo que postavam no perfil e como o seguidor se relacionava com as postagens daquele perfil, essa rede social facilitou ainda mais a forma de encontrar pessoas com gostos e interesses parecidos, principalmente por meios de hashtags, que foram introduzidas pelo Twitter em 2005, então se você entrasse no Tumblr e digitasse proana ou promia, o usuário sempre era direcionado para todas as postagens que eram publicadas com essas hashtags.
Outra coisa que o Tumblr facilitou na época era o anonimato, as meninas tinham consciência de que as suas atitudes eram reprovadas pela sociedade, então elas preferiam se manter anônimas e a rede social era descentralizada, o artigo de Larissa e Rafael traz um exemplo pertinente: em 2014, criaram uma página chamada Ana Mia da Depressão no Facebook com o intuito de tirar sarro das meninas que não conseguiam realizar as metas impostas, a página não durou dois meses na rede social porque foi denunciada em massa por pessoas que eram contra essa prática, já o Tumblr tornava impossível e inútil denunciar um a um dos perfis, pois além de serem muitos perfis, quanto mais perfis denunciados eram apagados, mais eram criados na mesma velocidade.
Não era apenas de distúrbios alimentares que o Tumblr se sustentava, o artigo de Stephanie Cristin Otto e Kátia Alexsandra dos Santos chamado "O Tumblr e sua relação com práticas autodestrutivas: o caráter epidêmico da autolesão" mostra que o Tumblr se tornou uma plataforma de proliferação de conteúdo de autolesão entre 2011 e 2015, afinal, era muito noticiado nos jornais como jovens praticavam automutilação e publicavam na internet, postando fotos extremamente chocantes no Tumblr.
A autolesão é uma incógnita para todos, a maioria das pessoas que se autolesionam não pensam em suicídio, pelo contrário, tem uma grande vontade de viver, mas os estudos afirmam que essa prática vem de um caráter epidêmico e comunidades sobre esse tema são visitados com frequência por adolescentes e jovens adultos, isso acaba fornecendo um meio de divulgação para essa prática.
Esse artigo também deixa claro a facilidade e a acessibilidade do Tumblr com as hashtags, e por adolescentes tratarem a rede como uma espécie de diário virtual, a plataforma se tornou um espaço propício para as pessoas publicarem em grande quantidade sobre as suas condutas autodestrutivas, a coisa era tão frenética que o Tumblr precisou mudar as suas políticas em 2012, proibindo esse tipo de publicação na plataforma.
A BBC chegou a publicar uma notícia falando sobre a mudança das políticas para automutilação e para comunidades pró-Ana e pró-Mia, o Tumblr incluiu mensagens de conteúdo violento e remoção total a menção desses tópicos na plataforma, isso foi considerado um primeiro passo positivo pelas instituições, mesmo assim, alguns usuários fizeram um abaixo-assinado pedindo para a plataforma não remover os blogs que falavam sobre isso que obteve 1600 assinaturas com a justificativa de que aquelas postagens eram a representação dos próprios pensamentos dos usuários que não seriam capazes de expressar de outra forma, como uma forma de terapia, porém, a plataforma seguiu com a política.
Se vocês procurarem pelas redes sociais hoje, verão que isso não foi tirado das vozes da minha cabeça, Jeovana Rabelo, dona do perfil no Instagram jova.rabelo fez um vídeo onde ela fala sobre como houve uma era no Tumblr onde transtornos alimentares eram normalizados e as pessoas achavam isso estético, ela mesma relata que amava ser fotografada e se sentia péssima com ela mesma, falando que as legendas sempre tinham uma autoironia ou autodepreciação como se fosse força, mas não era, falando que ela admirava várias meninas estilosas enquanto lia, ouvia e absorvia comentários sobre o corpo, o peso e a existência dela, pois comunidades que incentivavam bulimia, distorção de imagem e ódio do próprio corpo eram tão comuns que pareciam normais.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_08fbf48bc0524877943fe86e43087e7a/internal_photos/bs/2021/3/X/RNxESATAWGlBde7RvyKA/2013-02-06-tumlbr.jpg)
Comentários
Postar um comentário