O que está acontecendo com o Discord

 Mais uma vez a plataforma entra na boca das Matildes.

Imagem roxa com um bichinho branco no centro que parece um controle de videogame com dois buracos roxos. Logotipo do site e app Discord. Fonte: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.discord

Se você não vive em uma caverna, deve ter ouvido muito sobre o Discord ultimamente, seja porque algum parente faz chamadas de vídeo e áudio por lá ou por causa das centenas de milhares de notícias absurdas que tem saído em relação a plataforma, mas ultimamente tem rolado mais uma polêmica que, assim como a situação do Roblox, tem feito crianças se revoltarem com a plataforma.

O Discord é um site e aplicativo gratuito fundado em 2015 onde você pode usar pelo seu navegador como Google Chrome, Firefox e etc, mas também pode usar no celular ou tablet através do aplicativo disponível na Play Store, ele promove chamada de voz, conversas em texto e até vídeo chamada, sendo criado para melhorar a comunicação entre comunidades online específicas como comunidade gamer e até trabalho em equipe, tanto é que a plataforma foi desenvolvida pela empresa Hammer & Chisel, uma desenvolvedora de jogos, que agora mudou o nome para Discord Inc.

Antes de falarmos do ocorrido agora, tenho que contextualizar sobre o início de tudo isso, como que a plataforma feita para melhorar a comunicação entre gamers se tornou algo temido até mesmo pelos youtubers, para isso, precisamos voltar lá em 2023. Em Abril de 2023, o Fantástico publica uma matéria na televisão e no site do G1 fazendo uma denúncia informando que o Discord havia se tornado uma ferramenta que fazia jovens se envolverem em um submundo de violência, de início vocês devem achar que é mais um caso da televisão demonizando a internet como ocorre sempre que uma criança psicopata assassina alguém e colocam a culpa no videogame, mas dessa vez, a coisa foi diferente.

Criminosos estavam na plataforma criando uma rede sem lei onde usavam a insegurança do Discord com crianças e adolescentes para praticarem crimes graves contra meninas menores de idade, pois através de transmissões ao vivo na plataforma, as meninas eram chantageadas e obrigadas a cumprirem desafios, e se não aceitassem, suas fotos íntimas eram vazadas, tudo isso feito por homens maiores de idade sádicos, misóginos com asco e avesso de mulheres, sendo essas as palavras do próprio delegado do caso.

Foi descoberto que um dos criminosos tinha vários aparelhos de armazenamento com uma coleção chamada "backup das vagabundas estupráveis" e em cada pasta tinha o nome de uma menina menor de idade que era vítima das chantagens, meninas que foram violadas e expostas por esses criminosos, eles se sentiam protegidos pelo anonimato, se escondendo atrás de pseudônimos e se tornando cada vez mais cruéis, se colocando como Deus e chamando as meninas de vagabundas que mereciam sofrer, isso fez alguns serem presos já naquela época.

Haviam denúncias de dez vítimas contendo fotos de meninas nuas, mutiladas com uma assinatura com o nome de um dos criminosos, que foi preso em Abril de 2023, ele admitiu que chantageou as meninas para elas se mutilarem e o delegado do caso, João Rocha, explicou que as meninas precisaram esconder isso da família. A Polícia Federal localizou as dez vítimas das denúncias, mas o Fantástico afirma ter localizado mais cinco vítimas.

A coisa não caiu apenas em cima dos criminosos que foram presos, mas também da própria plataforma, o Discord foi investigado pelo Ministério Público de São Paulo, que começou a apurar através de um inquérito civil sobre a falta de segurança da plataforma, claro que crimes virtuais sempre acontece em qualquer plataforma, mas a preocupação de todos era referente a no Discord ter um discurso estruturado de ódio muito grande e estava se tornando um local propício para que criminosos planejassem ataques contra suas vítimas e ainda transmitiam conteúdo criminoso.

Já o porta-voz do Discord falou para o Fantástico que a plataforma não tolera discurso de ódio, eles eram um conteúdo gratuito para mais de 150 milhões de pessoas mundialmente e que de tempos em tempos vai aparecer algum mau comportamento, eles trabalhavam muito duro para remover esse conteúdo, inclusive, eles enfatizaram que a maioria das interações dos brasileiros na plataforma eram respeitosas e saudáveis.

Claro que esse caso reacendeu um debate muito importante: a regulamentação! Esse não havia sido o primeiro e nem o último caso de falta de moderação em plataformas, até porque o próprio Discord estava sendo processado nos EUA na época pela família de uma menina de 11 anos que tentou cometer suicídio por causa de exploração sexual na internet e aqui no Brasil, o Marco Civil da Internet apenas obriga as plataformas a retirarem o conteúdo sob ordem judicial, a plataforma não é responsabilizada pelo conteúdo veiculado nelas e foi a partir desse caso que foi acendido o debate sobre regulamentar as redes sociais e o STF até abriu uma audiência pública em Março do mesmo ano para revisar e atualizar a lei do Marco Civil, assim como o PL das Fake News que tramitava em regime de urgência na Câmara dos Deputados e no fim, nunca saiu do papel.

Mais tarde, o Ministério Público do Mato Grosso também fez uma matéria falando do caso e dando mais detalhes: um dos jovens envolvidos tinha 19 anos e foi preso por suspeita de associação criminosa e por estupro de vulnerável, além de ser suspeito por vender ou expor a venda e armazenar foto, vídeo ou outro registro com cena de sexo explícito ou pornografia infantojuvenil, depois mais dois adolescentes com idades de 14 e 17 anos foram apreendidos por suspeita de participar dos grupos. Foi dito pela Delegacia da Criança e Adolescente Vítima que o suspeito preso na segunda fase era o criador e administrador do servidor principal onde os crimes eram cometidos.

As investigações apuraram que haviam três servidores do Discord que eram usados por um grupo de adolescentes de várias regiões do país para cometerem violência contra animais e adolescentes, eles também divulgavam pedofilia, zoofilia e faziam apologia a racismo, nazismo e misoginia abertamente, os vídeos mostravam mutilações e sacrifícios de animais como desafios impostos pelos criadores e administradores dos grupos como forma de ganhar cargos dentro da comunidade e a maioria dessas ações eram transmitidas ao vivo para todos os participantes assistirem.

Um ano após as investigações, finalmente o líder do grupo foi condenado a 24 anos e sete meses de prisão em regime fechado, a sentença foi proferida pelo Juizado Especial Adjunto Criminal de Cachoeiras de Macacu na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, segundo o site Migalhas, a sentença destacou que o criminoso tratava a internet como terra sem lei, liderando uma plataforma que distribuía material ilícito que incluía pornografia, maus-tratos aos animais, bullying e instigação a automutilação.


Você pode achar que as coisas acabaram por aí, mas não! Em 2026, lá vai a Polícia Civil de São Paulo resolver mais um crime dentro do Discord, dessa vez foi aberto um inquérito para investigar a plataforma por apologia a violência digital, aparentemente essa medida foi tomada após o Discord ter descumprido uma solicitação emergencial das autoridades pedindo o fim de transmissões ao vivo onde cenas de violência eram mostradas para crianças e adolescentes, isso porque os policias do NOAD, Núcleo de Observação e Análise Digital flagraram o momento que ocorria uma live com esse tipo de cena enquanto monitoravam um grupo que estava envolvido na divulgação de imagens, mas mesmo com o pedido da derrubada, o Discord não acatou e o evento continuou ocorrendo.

Por causa disso, as equipes fizeram um relatório de inteligência com provas e argumentos que comprovavam o crime. Segundo a CNN Brasil, o documento foi enviado para o DHPP, Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa que analisou os fatos e instaurou o inquérito, isso fez o Discord ser intimado.



A explicação para o que ocorre no Discord é feito pela BBC, a verdade é que a proliferação de discurso extremista não nasceu com o Discord e não se manteve apenas no Discord, muitas plataformas são campos férteis para essa proliferação, desde o Orkut até o TikTok, mas o que diferencia o Discord das demais plataformas, segundo o pesquisador João Victor Ferreira, é a própria construção da plataforma por prezar pela criação de uma comunidade fechada sendo produzido para um grupo restrito com a intenção de não viralizar e não ganhar alcance e por ser um ambiente fechado é mais difícil ter a tutela do Estado, além disso, tem muita ideologia gamer que é avessa a moderação e trata isso como censura, além que a moderação de um grupo é dado para pessoas presentes dentro do próprio grupo.

Isso não acabou, agora em 2026, tivemos o caso do Cão Orelha, em que adolescentes de Santa Catarina mataram, torturaram, mutilaram e até estupraram um cão de rua e a desconfiança da delegada Lisandrea Salvariego e de demais autoridades são os grupos de Discord, pois mapeando autores, vítimas e ambientes digitais desde 2023, a polícia identificou padrões como discurso de ódio, hierarquias internas e sistemas de recompensas baseados no sofrimento. A delegada afirma que isso ocorre todas as madrugadas com crianças e adolescentes infiltrados nesse mundo sem o conhecimento dos pais pela falta de letramento digital dos responsáveis, aparentemente existe uma comunidade de zoosadismo que já tiveram noites onde a delegada viu 20 animais entre cães e gatos serem torturados e mortos na plataforma e o objetivo de quem faz essa atrocidade é ficar famoso, conhecido e ganhar status dentro desse servidor

Acredito que por causa de todos esses absurdos, o Discord decidiu adotar a mesma técnica do Roblox, a partir de Março, a plataforma vai começar a exigir verificação de idade para acessar certos conteúdos, isso inclui acesso restrito a canais, servidores, comandos com limitação de idade e solicitações de mensagens selecionadas, essas medidas buscam oferecer uma proteção forte e permitir flexibilidade para adultos verificados, também decidiram borrar conteúdos gráficos ou sensíveis.

Segundo o TechTudo, será feito usando uma estimativa de idade facial ou terão que enviar um documento de identificação para remover as restrições, mas futuramente eles pretendem colocar mais opções, também enfatizaram que as selfies ficarão registradas no telefone do usuário e os documentos serão excluídos rapidamente após a confirmação de idade.




O G1 afirma que a OpenAI e o TikTok também começaram a implementar restrições. A Meta e a Google estão sendo processadas nos Estados Unidos sobre danos causados na saúde mental de crianças, a OpenAI também enfrentou acusações de que o ChatGPT incentivou o suicídio de adolescentes e por mais que crianças estejam protestando contra o Roblox e cancelando suas assinaturas do Discord (que sinceramente é um grupo bem seleto), as plataformas estão começando a fazer alguma coisa, porém, ainda precisamos falar em como o discurso de ódio se tornou mais forte de uns tempos para cá.


Além disso, desde muitos anos está sendo falado como a retirada da matéria de História do Novo Ensino Médio tem prejudicado os adolescentes, povo que não conhece a sua história tende a repeti-la, a reforma do Ensino Médio sancionada por Michel Temer em 2017 tirou a obrigatoriedade das escolas lecionarem História e Geografia para os jovens, isso gera apreensão na população, isso tem gerado críticas há anos e com razão, enquanto não for martelado a história do país e do mundo na cabeça dos jovens e com o crescimento da violência entre os adultos que promovem através de discursos políticos, continuaremos sofrendo esse tipo de coisa.

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